Manejo do Modo de Ação

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Durante as discussões no MAPA a respeito da Reavaliação Agronômica ressurgiu a necessidade de colocar um conhecimento agronômico mais próximo ao usuário dos produtos fitossanitários.

Chegou-se à conclusão que o modo de ação dos pesticidas precisava ser mais difundido para que o agricultor possa ajudar efetivamente na luta contra a adaptação que as pragas desenvolvem contra a presença de determinado defensivo na lavoura. Isso ficou mais evidente no caso do fungo Phakopsora pachyrhizi causador da ferrugem-asiática-da-soja, quando foi constatado que diversos fungicidas não mais estavam funcionando. Aliás, fato que motivou a citada Reavaliação Agronômica. Considerando que o fenômeno estava acontecendo no principal cultivo do país, fez-se urgente um contra-ataque rápido.

Cada ingrediente ativo age em um sítio específico da praga desencadeando processos bioquímicos ou biofísicos que levam o organismo-praga à falência funcional e morte.

Apenas para ilustrar o artigo, daremos exemplo do modo de ação de um fungicida. O Tebuconazole é um fungicida do grupo Triazol, e como tal é um inibidor da biossíntese do ergosterol, importante lipídio para a formação da membrana de fungos. A inibição da formação do ergosterol leva ao colapso da célula fúngica.

O fungo da ferrugem-da-soja tem um forte poder de adaptação, que pode ocorrer por alguns processos, sendo o mais comum a sobrevivência de alguns indivíduos sob ataque de um fungicida, certamente por terem de forma natural um mecanismo de bloqueio daquela substância. Estes indivíduos se multiplicam e começa um cenário de “resistência” ao dito fungicida.

Porém, se for aplicado um produto com um determinado modo de ação e na 2ª aplicação usar outro ingrediente ativo com modo de ação ou mecanismos de ações diferentes, é certo que os artifícios de sobrevivência da praga serão dificultados.

O assunto se complicou mais um pouco quando se percebeu que fungicidas quimicamente diferentes, mas com modos de ação semelhantes também podem ter perda de eficácia. Isso é a chamada resistência cruzada. E mais, em raros casos, detectou-se a resistência múltipla, ou seja, a praga conseguiu adaptação mesmo a produtos com modos de ação diferentes. A lição aprendida foi: o modo de ação de uma e outra aplicação deve ser bem diferente mesmo.

Existem muitos Modos de Ação (MoA) dos fungicidas. Podem agir na síntese de ácidos nucléicos, na divisão celular, na respiração, na síntese de aminoácido e proteínas, na síntese da metionina, na ruptura da membrana e tantas mais.

Você pode saber mais sobre quais são os modos de ação acessando o site do FRAC (www.frac-br.org). Para herbicidas digite HRAC e para inseticidas IRAC.

O Ministério da Agricultura decidiu que os rótulos dos produtos trouxessem bem à vista o modo de ação, para que o usuário possa transformar em rotina a rotação de produtos com ação diferenciada sobre a praga da vez em sua lavoura. É uma tática de popularização de um conhecimento científico que certamente vai trazer resultados positivos. Parabéns ao MAPA.

A partir desse ano os rótulos passaram a trazer um retângulo logo abaixo da composição do produto, com a identificação do modo de ação.

Assim, por exemplo, para o Tebuconazole o retângulo traz as seguintes informações:
GRUPO G1 FUNGICIDA

Já o Carbendazim, que é um Benzimidazol, traz o seguinte:
GRUPO B1 FUNGICIDA

Essa simbologia é do Sistema de Classificação Internacional Unificado. As letras que identificam os Grupos significam a distinção maior entre os Modos de Ação e os números identificam subgrupos que definem cada mecanismo de ação.

O Ato 45/2017 do MAPA apresenta tabelas para fungicidas, herbicidas e inseticidas, com os Grupos e seus subgrupos, o modo de ação e a família química de cada um. Por este Ato os produtos biológicos, microbiológicos e semioquímicos estão dispensados de dispor essa codificação.

O agricultor aos poucos tenderá a não usar o mesmo produto em sequência nas suas aplicações na mesma safra, por eficiente que seja. Vai alternar produtos que estejam funcionando bem contra determinada praga com as informações obtidas regionalmente, e que tenham codificação diferenciada no centro do retângulo, aposto aos rótulos. Em caso de dúvida, o responsável técnico pela Receita Agronômica poderá instruir adequadamente.

Essa foi a mais significativa contribuição nas práticas agrícolas para o controle da ferrugem-asiática-da-soja desde a introdução do Vazio Sanitário. O Vazio é um método tentativo de segurar a disseminação do fungo, de uma safra ou região para outra, e depende de alguns macros fatores de administração territorial para funcionar. Aqui, cada microrregião deveria concentrar seu plantio em um período, de sorte que seja o mais possível evitado o contágio de fungos mutantes durante a safra. Por sua vez, a utilização racional do MoA é uma prática que a própria propriedade agrícola deve utilizar e não tem dependência externa.

Eng. Agr. Tulio Teixeira de Oliveira – Diretor Executivo da AENDA
www.aenda.org.br / aenda@aenda.org.br
Janeiro.2018