Nº 009

Abril/1999
PLANTAS TRANSGÊNICAS
PLANTAS TRANSGÊNICAS I - Macro Enfoque
Estupefação e medo atávico gerando discussões infindáveis. O homem reanalisa sua natureza e seu caminho de vida, aproveitando o mote da moderna biotecnologia. Pontos anotados aqui e ali que achamos interessante reproduzir:
FILOSÓFICOS: Se o homem é parte integrante da natureza, suas criações são consideradas naturais ? Vulcões e terremotos redesenham continuamente o meio ambiente; edificações de cidades, cultivos e pastagens também. A ciência nuclear pode pender para o bem ou para o mal, que aliás, o são assim dependendo do observador. Transgênicos idem.
CIENTÍFICOS: Dominamos mesmo a nova tecnologia ? Quando surgiu o insetticida DDT, a humanidade ficou maravilhada com os benefícios. Anos depois, foram apresentadas ou descobertas as facetas negativas do herói. Criou-se então, um protocolo científico para filtrar rigorosamente as novas substâncias candidatas a pesticida. São testes e testes toxicológicos e ambientais que de certa forma nos tranquilizam. Com as transgênicas ainda não foi elaborado um protocolo que nos diga com certo grau de segurança, o que o futuro nos revelará sobre efeitos indesejáveis à saúde e meio ambiente. O desafio é grande, pois a dimensão do problema é outra, não é química e estática, é biológica e evolutiva. Na atualidade o desconhecimento do genoma é maior que o conhecimento. E os efeitos sociais ? Teremos um protocolo sobre isso ? Afinal, tudo que inventamos e emprestamos garantias no direito patentário,pressupostamente, é em benefício do ser humano,... ou será das empresas ?
INVESTIMENTOS: Os bilhões de dólares investidos sinalizam para o inevitável. Os gerenciadores de empresas têm satisfações a dar aos capitalistas cotistas. A pressão é insuportável, arrasta até os cientistas. A regra capitalista não perdoa gastos sem retornos.
MERCADO: A biotecnologia afetará significativamente áreas importantes, como agroquímicos - mais de 30 bilhões de dólares, e, fertilizantes - cerca de 50 bilhões de dólares, só para ficarmos nos "inputs". Isso gera uma brutal força emocional movimentando a roda dos negócios. Estratégias para tirar proveito são elaboradas, rasgadas, reelaboradas. Alianças e fusões se multiplicam. O desespero dos "sem saída" se soma aos sinalizadores de maus preságios. É uma delirante tragicomédia.
ALIMENTAÇÃO: A nova biotecnologia promete alimentar os 9 bilhões de habitantes que teremos na primeira metade do próximo século. E hoje ? Temos produção e estoque para alimentar todas as pessoas e não o fazemos. Por quê ? E amanhã, estaremos fazendo a mesma pergunta ?

PLANTAS TRANGÊNICAS II - Enfoques Pontuais
SOJA TOLERANTE A GLIFOSATO: O glifosato no Brasil é produzido e ofertado por diversas companhias. Todos funcionam igualmente contra as mesmas ervas daninhas. Mas nem todos poderão ser comercializados para a soja transgênica. Só o da MONSANTO, marca ROUNDUP. A razão não é, como se poderia imaginar, uma reserva de mercado planejada pela multinacional para as lavouras plantadas com a, também sua, semente tolerante ao glifosato. Não, a razão reside lá em Brasília, é o muro de determinadas burocracias incompreensíveis emperrando a livre concorrência e abrindo clareira para venda casada de semente + herbicida e para a prática de "dumping" na cadeia distributiva. A permissão para se acrescentar em cada rótulo o controle das mesmas ervas que infestam a agora nova soja - "variedade transgênica" -, é um processo que exige testes em campo de eficácia (repetição descabida, pois o alvo continua sendo as mesmas ervas, cujo controle já foi comprovado) e teste de fitotoxicidade (um verdadeiro absurdo, pois seria como acreditar que a molécula glifosato se transmudasse ao ser usada na composição de outra marca comercial). O interessante é que para as diversas variedades de soja existentes, que expressam características genéticas diferenciadas, como resistência a essa ou àquela doença, não são exigidos estas repetições de testes (ou será que passarão a exigir também, após essa "deixa" ?) . Mesmo assim, as empresas dos glifosatos genéricos se prontificam a fazer os testes, mas como, se as sementes transgênicas não estão disponíveis e são propriedade da MONSANTO? O governo não pode ficar impassível, tem de dar uma saída urgente ! A EMBRAPA, cuja estrutura é financiada com dinheiro de todos nós, faz as pesquisas sob contrato para a MONSANTO. Não advogamos impedir essa via de angariar recursos, certamente deve haver um regime jurídico, onde as pesquisas da EMBRAPA possam ser repassadas com exclusividade a uma única empresa e , simplesmente, nós desconheçamos. Mas, que tal incluir os outros glifosatos em algumas dessas pesquisas, só para ter certeza que as funções dos glifosatos genéricos são iguais ao ROUNDUP na soja transgênica ? Aliás, caso as funções sejam diferentes, por exemplo, se um glifosato genérico "queimar" a soja, tem algo a ser reexplicado na tecnologia, ou o glifosato não é mais glifosato. A EMBRAPA deve vir a público explicar isso. Nos Estados Unidos e Argentina, todas as marcas de glifosato são comercializadas livremente e usadas na soja transgênica, sem necessidade desses testes e sem nenhuma celeuma. No Brasil, a soja transgênica pode ser considerada similar à soja natural, por quê os glifosatos de fabricantes diferentes não podem ser similares? Onde está a lógica ? E, o incrível é que o glifosato é uma substância química, com similaridade muito mais fácil de comprovar que uma complexa semente.
ROTULAGEM: A rotulagem salvará a humanidade dos inimagináveis, ocultos malefícios dos transgênicos. É o que se deduz da defesa estóica deste procedimento. Em verdade, o que se está querendo dizer é: temos medo dos transgênicos, mas não podemos impedi-los, mercê do altíssimo investimento realizado e da sede de retorno lucrativo, porém nos resta um último freio: a rotulagem. Do outro lado, bradam que não é necessário rotular, a soja transgênica é similar à soja natural, tudo continua "commodity". Brigas à parte, - com uma breve mirada no mercado alimentício de hoje e uma leitura nas promessas transgênicas de um próximo amanhã, é possível concluir que a identificação precisa nas colheitas e a rotulagem dos produtos acabados é e será uma condição natural de comercialização. Hoje, separamos hidropônicos, alimentos orgânicos, livres de agroquímicos, etc., para obtenção de um prêmio, de um ganho extra; existem pessoas dispostas a pagar por isso, é fato. Os transgênicos rapidamente nos trarão infinitas variantes de oferta: milho com alto teor de óleo ou com mais teor de lisina-metionina ou com fósforo disponível aos animais; soja com menor teor de gordura saturada, etc.. Os agricultores identificarão obrigatoriamente suas colheitas e os rótulos expressarão a composição dos alimentos diferenciados. Rotulagem não é filtro preventivo contra efeitos indesejáveis e imperceptíveis, mas nesse momento pode ser uma arma econômica, caso o Brasil consiga gerenciar, por exemplo, acordos comerciais com a Europa de sua soja diferenciada, - a natural. Rótulo é propaganda do produto, antes de tudo.

AENDA - Associação Brasileira dos Defensivos Genéricos