Temos
recebido aqui na AENDA, diversos artigos enviados por Polan Lacki,
com assinatura FAO / ONU, organização mundial que ele
representa na América Latina, especificamente na linha de incentivo
ao desenvolvimento agropecuário, em especial das pequenas propriedades.
São artigos longos, mas, cada parágrafo, cada linha,
brinda-nos com conteúdo rico de ensinamentos, ditos com uma
simplicidade espantosa. O último nos fala da necessidade de
recuperar o papel da escola rural. Abaixo, fazemos uma síntese
do mesmo, empregando o máximo possível passagens do
texto original. Quem se interessar pelo texto completo deve contatar
o e-mail Polan.Lacki@fao.org . Vale a
pena a reflexão, melhor ainda, a ação.
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"Ser eficiente já não é uma vantagem mas
sim um requisito. Na América Latina necessitamos desmistificar
a imprescindibilidade das soluções paterna lista-dependentes
e substituí-las por soluções educativa-emancipadoras,
as quais permitirão conciliar escassez de recursos com eficiência
empresarial. Alguns exemplos hipotéticos ilustram a viabilidade
e eficácia de um modelo mais endógeno e emancipador:
(a) Em vez de semear uma monocultura que produz alimentos e renda,
uma ou duas vezes ao ano, os agricultores poderiam fazer uma gradual
diversificação agrícola-pecuária com o
propósito de produzir alimentos, tanto para a família
como para os animais, e gerando receita 365 dias do ano. O simples
fato de diversificar a produção, automaticamente reduziria
a crônica dependência do crédito e diminuiria riscos
sanitários, climáticos e comerciais. (b) Em vez de adquirir
e manter um touro e cinco vacas geneticamente medíocres e subnutridas,
que juntas produzem apenas 20 litros de leite por dia e cada uma delas
tem um bezerro a cada 22 meses, será preferível desfazer-se
do reprodutor e de quatro fêmeas, porque em muitos casos estão
consumindo mais do que produzem. Com o dinheiro obtido, melhorar a
produção de forragens e adquirir uma única vaca
geneticamente melhorada. Esta, bem alimentada, poderá produzir
os mesmos 20 litros diários e parir um bezerro a cada 12 meses.(c)
Em vez de semear um hectare de batata inglesa, com graves erros tecnológicos
e insuficiência de insumos que rende apenas 10 toneladas, será
preferível corrigir os referidos erros, eliminar trabalho desnecessário
e concentrar os escassos insumos disponíveis, talvez em um
terço de hectare e nesta menor superfície colher as
mesmas 10 toneladas; ao substituir a quantidade pela qualidade, os
agricultores poderiam diminuir os investimentos e ociosidades, cultivar
melhor uma superfície menor e melhorar a relação
custo / benefício. (d) Em vez de comprar rações
balanceadas com alto valor agregado do último elo de intermediação
e posteriormente vender os suínos sem valor agregado (vivos)
ao primeiro elo da cadeia, lhes seria mais conveniente, produzir a
maior parte dos alimentos na sua propriedade diversificada, e comercializar
os animais com maior valor agregado e com menos intermediação.
Na medida do possível
e do conveniente, a propriedade rural deveria ser transformada em
uma agroindústria familiar produtora de alguns insumos (variedades
de sementes, mudas, adubos orgânicos, forragens, fábrica
de linguiça, etc.) e incorporadora de valor aos excedentes.
Com isso haveria menos intermediários, menos impostos, menos
frete e menos pedágios. A maioria dos produtores rurais poderia
desenvolver uma agricultura mais eficiente mesmo não tendo
acesso ao crédito; e poderia competir sem necessidade de subsídios
ou de medidas protecionistas.
A solução
está fundamentalmente em usar insumos intelectuais e não
tanto de insumos materiais. Por quê os agricultores não
adotam essas soluções? Por um simples motivo: não
lhes foi ensinado a formular e executar de forma correta , soluções
compatíveis com os recursos que realmente possuem, nem a utilizá-los
na plenitude de suas potencialidades. Não lhes foi ensinado
em seus lares porque seus pais não poderiam ter-lhes transmitido
conhecimentos que eles mesmos nunca adquiriram e também não
lhos ensinaram na escola.
Para a maioria das famílias
rurais a passagem pela escola básica rural (do primeiro ao
oitavo ano) é a única oportunidade em suas vidas de
adquirir as competências que lhes permitiriam eliminar as principais
causas internas do subdesenvolvimento rural. Infelizmente, essas escolas
não estão cumprindo com esta importantíssima
função emancipadora de dependências e de vulnerabilidades;
porque os seus conteúdos e métodos são disfuncionais
e inadequados às necessidades produtivas e familiares do meio
rural. Das referidas escolas continuam egressando gerações
de futuros agricultores, agricultoras, pais e mães de família,
com baixíssima auto-estima, sem os conhecimentos, sem as atitudes
e sem os valores que necessitam para serem agricultores mais eficientes,
melhores educadores dos seus filhos e solidários protagonistas
das suas comunidades.
A educação
básica rural deveria ter um caráter mais instrumental
no sentido de proporcionar às crianças conteúdos
úteis que elas possam aplicar na correção de
suas próprias ineficiências e na solução
dos problemas que ocorrem nos seus lares e comunidades. Temos cada
vez mais evidências de que a principal causa do subdesenvolvimento
rural é o conjunto de ineficiências tecnológicas,
gerenciais e organizacionais, que estão sendo cometidas em
todas as etapas do negócio agrícola; e que a causa mais
profunda dessas distorções é a falta de conhecimentos
adequados. Não é preciso premiar as ineficiências
com subsídios, mas eliminá-las com conhecimentos. As
instituições de ensino rural deveriam passar por uma
reengenharia nos conteúdos educativos e nos métodos
pedagógicos, os quais oxalá privilegiem o "ensinar
a solucionar os problemas, solucionando-os". Deve-se atacar o
problema central, que é o desencontro entre o "que e como"
se ensina nas escolas e o "que e como" as famílias
realmente necessitam aprender. Este divórcio é inaceitável
e se for feita uma revolução educativa de realismo,
de objetividade e de pragmatismo, será formada uma nova geração
de mulheres e homens rurais que protagonizarão a revolução
produtiva da eficiência e da emancipação."