Nº 023

Maio/2000
SOLUÇÃO DO CAMPO DEVE COMEÇAR NA ESCOLA RURAL

Temos recebido aqui na AENDA, diversos artigos enviados por Polan Lacki, com assinatura FAO / ONU, organização mundial que ele representa na América Latina, especificamente na linha de incentivo ao desenvolvimento agropecuário, em especial das pequenas propriedades. São artigos longos, mas, cada parágrafo, cada linha, brinda-nos com conteúdo rico de ensinamentos, ditos com uma simplicidade espantosa. O último nos fala da necessidade de recuperar o papel da escola rural. Abaixo, fazemos uma síntese do mesmo, empregando o máximo possível passagens do texto original. Quem se interessar pelo texto completo deve contatar o e-mail Polan.Lacki@fao.org . Vale a pena a reflexão, melhor ainda, a ação.
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"Ser eficiente já não é uma vantagem mas sim um requisito. Na América Latina necessitamos desmistificar a imprescindibilidade das soluções paterna lista-dependentes e substituí-las por soluções educativa-emancipadoras, as quais permitirão conciliar escassez de recursos com eficiência empresarial. Alguns exemplos hipotéticos ilustram a viabilidade e eficácia de um modelo mais endógeno e emancipador: (a) Em vez de semear uma monocultura que produz alimentos e renda, uma ou duas vezes ao ano, os agricultores poderiam fazer uma gradual diversificação agrícola-pecuária com o propósito de produzir alimentos, tanto para a família como para os animais, e gerando receita 365 dias do ano. O simples fato de diversificar a produção, automaticamente reduziria a crônica dependência do crédito e diminuiria riscos sanitários, climáticos e comerciais. (b) Em vez de adquirir e manter um touro e cinco vacas geneticamente medíocres e subnutridas, que juntas produzem apenas 20 litros de leite por dia e cada uma delas tem um bezerro a cada 22 meses, será preferível desfazer-se do reprodutor e de quatro fêmeas, porque em muitos casos estão consumindo mais do que produzem. Com o dinheiro obtido, melhorar a produção de forragens e adquirir uma única vaca geneticamente melhorada. Esta, bem alimentada, poderá produzir os mesmos 20 litros diários e parir um bezerro a cada 12 meses.(c) Em vez de semear um hectare de batata inglesa, com graves erros tecnológicos e insuficiência de insumos que rende apenas 10 toneladas, será preferível corrigir os referidos erros, eliminar trabalho desnecessário e concentrar os escassos insumos disponíveis, talvez em um terço de hectare e nesta menor superfície colher as mesmas 10 toneladas; ao substituir a quantidade pela qualidade, os agricultores poderiam diminuir os investimentos e ociosidades, cultivar melhor uma superfície menor e melhorar a relação custo / benefício. (d) Em vez de comprar rações balanceadas com alto valor agregado do último elo de intermediação e posteriormente vender os suínos sem valor agregado (vivos) ao primeiro elo da cadeia, lhes seria mais conveniente, produzir a maior parte dos alimentos na sua propriedade diversificada, e comercializar os animais com maior valor agregado e com menos intermediação.

Na medida do possível e do conveniente, a propriedade rural deveria ser transformada em uma agroindústria familiar produtora de alguns insumos (variedades de sementes, mudas, adubos orgânicos, forragens, fábrica de linguiça, etc.) e incorporadora de valor aos excedentes. Com isso haveria menos intermediários, menos impostos, menos frete e menos pedágios. A maioria dos produtores rurais poderia desenvolver uma agricultura mais eficiente mesmo não tendo acesso ao crédito; e poderia competir sem necessidade de subsídios ou de medidas protecionistas.

A solução está fundamentalmente em usar insumos intelectuais e não tanto de insumos materiais. Por quê os agricultores não adotam essas soluções? Por um simples motivo: não lhes foi ensinado a formular e executar de forma correta , soluções compatíveis com os recursos que realmente possuem, nem a utilizá-los na plenitude de suas potencialidades. Não lhes foi ensinado em seus lares porque seus pais não poderiam ter-lhes transmitido conhecimentos que eles mesmos nunca adquiriram e também não lhos ensinaram na escola.

Para a maioria das famílias rurais a passagem pela escola básica rural (do primeiro ao oitavo ano) é a única oportunidade em suas vidas de adquirir as competências que lhes permitiriam eliminar as principais causas internas do subdesenvolvimento rural. Infelizmente, essas escolas não estão cumprindo com esta importantíssima função emancipadora de dependências e de vulnerabilidades; porque os seus conteúdos e métodos são disfuncionais e inadequados às necessidades produtivas e familiares do meio rural. Das referidas escolas continuam egressando gerações de futuros agricultores, agricultoras, pais e mães de família, com baixíssima auto-estima, sem os conhecimentos, sem as atitudes e sem os valores que necessitam para serem agricultores mais eficientes, melhores educadores dos seus filhos e solidários protagonistas das suas comunidades.

A educação básica rural deveria ter um caráter mais instrumental no sentido de proporcionar às crianças conteúdos úteis que elas possam aplicar na correção de suas próprias ineficiências e na solução dos problemas que ocorrem nos seus lares e comunidades. Temos cada vez mais evidências de que a principal causa do subdesenvolvimento rural é o conjunto de ineficiências tecnológicas, gerenciais e organizacionais, que estão sendo cometidas em todas as etapas do negócio agrícola; e que a causa mais profunda dessas distorções é a falta de conhecimentos adequados. Não é preciso premiar as ineficiências com subsídios, mas eliminá-las com conhecimentos. As instituições de ensino rural deveriam passar por uma reengenharia nos conteúdos educativos e nos métodos pedagógicos, os quais oxalá privilegiem o "ensinar a solucionar os problemas, solucionando-os". Deve-se atacar o problema central, que é o desencontro entre o "que e como" se ensina nas escolas e o "que e como" as famílias realmente necessitam aprender. Este divórcio é inaceitável e se for feita uma revolução educativa de realismo, de objetividade e de pragmatismo, será formada uma nova geração de mulheres e homens rurais que protagonizarão a revolução produtiva da eficiência e da emancipação."

AENDA - Associação Brasileira dos Defensivos Genéricos