O agricultor, ao se defrontar com a lavoura
atacada por um ácaro e um inseto, ou por espécies diversas
de ervas daninhas, ou outras situações impossíveis
de controle com um só produto, recorre a dois produtos, diluindo-os
em água e aplicando-os conjuntamente. Não estamos falando
de agricultor brasileiro, mas de lavrador americano e europeu. É
uma prática lógica e racional, menos no Brasil, como
se pode concluir da polêmica entre os ministérios responsáveis
pelo registro dos agroquímicos.
Aqui, exagera-se no temor aos produtos aplicados nas
culturas agrícolas, provoca-se uma verdadeira síndrome
junto à população e busca-se barrar o uso sob
qualquer pretexto, sem atentar para a lógica ou para a evolução
científica. As misturas em tanque pagam um pouco dessa conta.
Agora, sob o manto da defesa da saúde do trabalhador rural
e do meio ambiente, busca-se no poder judiciário derrubar a
prática das misturas, protagonista inocente desta conjuntura.
É uma confusão de tal ordem, que beira a irracionalidade,
mas de lastimável resultado para a agricultura nacional se
a justiça também for inconseqüente.
Do lado da saúde do trabalhador, a alegação
é estarem as misturas expondo o aplicador de agrotóxico
a um coquetel de substâncias de difícil socorro médico
em caso de intoxicação. Trata-se de argumento infundado,
pois o socorro é decorrência do diagnóstico do
quadro clínico de maior significância, atentando-se em
seguida para as demais seqüelas. Ademais, o risco de exposição
do trabalhador em verdade é menor quando aplica uma mistura,
uma vez que limita o tempo de exposição à metade.
Aplicar um e outro produto, separadamente, duplicaria o tempo de pulverização
e exporia o trabalhador aos mesmos produtos, ou não ?
Por sua vez, defensores do meio ambiente apontam a
possibilidade de impacto maior sobre a micro fauna / flora do solo
ou sobre espécimes dos rios e lagos, em razão do não
estudo prévio das misturas. Outra distorção da
realidade, porquanto não há reação química
entre os ingredientes da mistura. Cada produto em separado, teve o
impacto ambiental devidamente avaliado e, portanto, aplicados em mistura
ou em seqüência, impactam igualmente o meio.
Os responsáveis pelo registro no Ministério
da Agricultura, por seu turno, preocupados em regular uma boa informação
ao usuário e dotar o agrônomo de instrumento legal para
receitar corretamente as misturas, mas sob as pressões acima
descritas, excederam nas exigências aos registrantes. Obrigaram
a informar no rótulo / bula as marcas comerciais dos produtos
a misturar, além de obrigar cada empresa a obter permissão
das demais empresas para tal ato. Isto restringe as opções
do agricultor, que fica com um leque mais restrito de misturas para
comprar e usar. As empresas de genéricos pequenas e médias
via de regra não conseguem as permissões das grandes
empresas (guerra normal de concorrência) e não registram
suas misturas.
A regra deve ser simples: o rótulo
deve apresentar a recomendação específica para
a mistura e indicar o nome químico do produto, a concentração,
o tipo de formulação, limitações de uso
e precauções referentes ao produto de maior risco, na
esteira do que acontece nos Estados Unidos.
É obvio que, se uma empresa quiser citar as
marcas comerciais com a simbologia de marca registrada tem todo o
direito. É claro, também, que o agricultor deve realizar
um teste prévio de compatibilidade física. Aliás,
a esse respeito é bom lembrar que uma mistura nasce nas instituições
de pesquisa regionais, usando-se normalmente produtos líderes
de mercado e, depois, o fomento e os agricultores mais experientes
vão substituindo essas marcas por outras de produtos genéricos.
Portanto, é uma técnica testada e implementada aos poucos,
até uma difusão mais generalizada. Há tempo suficiente
para detecção de qualquer inconveniente de monta.
Por fim, erra também o judiciário ao
acatar demanda contra as misturas sem qualquer fundamentação
técnica comprobatória dos riscos adicionais que se alega
existir. O ônus fica todo para o acusado.
É preciso retomar a linha do bom senso, parar
de rotular o defensivo agrícola de símbolo da poluição
a envenenar nossos alimentos, florestas e rios. A indústria
fabrica por necessidade da Agricultura, pois a humanidade precisa
preservar o que planta. Também, a ciência vai ao longo
da história consertando erros e aprimorando seus protocolos
de cuidados e prevenções ao lançar novos inventos.
Neste diapasão, a ciência agronômica desenvolveu
sistemas de manejo, empregando todas as técnicas possíveis
de controle das pragas, de forma a diminuir o uso da química.
Todavia, o método químico ainda é o mais eficaz
e econômico. E no alcance do método químico, o
emprego de misturas, além da sua importância prática,
é instrumento considerado no manejo à resistência
de plantas daninhas a herbicidas. Não se pode prescindir delas
em agricultura de escala comercial.