ATO
I
Oitocentos e cinqüenta
milhões de hectares é a dimensão do território
brasileiro. No entanto, cabe tudo nos mapas escolares com escala planimétrica
em minguados 500 centímetros quadrados.
Outro dia, só por brincadeira, projetei num desses mapas, nas
zonas agricultáveis, 90 pequenos círculos representando
as Centrais estimadas do Programa de Recebimento das Embalagens Vazias
de Produtos Fitossanitários. Em torno delas desenhei pequenos
triângulos, eram os Postos de Recebimentos auxiliares da infraestrutura.
Apenas cinco para cada Central, foram 450 triângulos. Foi o
bastante, mais não cabiam, começavam a tangenciar-se.
Aí fui a Barreiras, oeste da Bahia, visitar a Central daquela
região. Olhei em volta, chão pra todo lado. Peguei meu
mapa e imaginei um Posto em Correntes, a 240 km, outro em Javi, a
110 km. Parei, pois lembrei a escala econômica. Recorri a algumas
anotações sobre o consumo de defensivos e conferi: em
toda a Bahia a demanda é de 2 milhões de embalagens
por ano, cerca de 440 mil quilos/ano de sucata. Para a Bahia foram
projetadas 5 Centrais (Ilhéus, Vitória da Conquista,
Bom Jesus da Lapa e Teixeira de Freitas, além de Barreiras),
ou seja, uma média de 88 mil quilos/ano/Central. A venda de
parte dessa sucata (tríplice lavada) para reciclagem, poderá
suportar os seus custos administrativos e operacionais. Mas, os Postos
em volta também terão custos, que em parte poderão
ser supridos pela receita da Central. Portanto, a infraestrutura,
mesmo quando operando a toda, terá limites de auto-sustentação,
regulados pela demanda regional.
ATO II
Resolvi visitar
um plantador de algodão. O agrônomo da ADAB (Agência
de Defesa Agropecuária) me levou em seu carro utilitário.
Fazenda grande, sem casa-sede, só galpões para máquinas
e pequenos ranchos de tábua para operários, vigias e
tudo o mais que a gente precisa. Em um desses, estavam lá,
à sombra, ventiladas, em piso de terra bem batida, um sem número
de embalagens vazias. Iriam ser entregues na Central de Barreiras
na camioneta F-150, 60 km pro norte.
No trajeto da volta, vimos uma casinha de reboco desgastado à
frente de um roçado de milho e feijão, com galinhas
ciscando e porcos grunhindo, claro. Perguntei ao homem que fazia capina
mecânica (enxada, mesmo!) onde estavam as embalagens vazias
dos agrotóxicos. Ele mostrou: atrás e encostado na casa,
um cercadinho de tijolos crus, com três desses de alto, escorando
uma pequena tábua larga, envergada em um lado, a servir de
cobertura. Levantei a tábua, lá estavam: 1 vidro de
inseticida e um frasco sem rótulo. Havia usado o inseticida
para matar lagartas no milharal e o outro produto fora indicado para
controlar a mosca branca que sempre infesta o feijão. E o rótulo?,
indaguei. "Os porcos, seu moço, fuçam em tudo".
Quis saber, então, se ele ia devolver lá na Central
de Barreiras. Ele me olhou e perguntou se eu queria um cafezinho.
Insisti, disse que era importante para o bem do meio ambiente... Finalmente,
concordou. Pegou as 2 embalagens vazias e disse: "Eu vou com
o senhor". Fomos, 40 km de utilitário. Ao entregar, recebeu
um comprovante, guardou no bolso de trás da calça e
apertou minha mão, despedindo-se. Fiquei pensando, como ele
vai voltar? 40 km de carro, quantos são a pé? Alcançamos
o homem e demos mais uma carona humanitária.
ATO III
Chapecó,
Santa Catarina. Reunião da Promotoria Pública, Cooperativas,
Revendedores, Fabricantes, Agricultores. Missão: organizar
o projeto de Recolhimento das Embalagens Vazias da região.
Lá pras tantas palestras e discussões, foi a vez da
fala de um técnico da CIDASC (Companhia de Desenvolvimento
Agrícola). Apresentou um kit-coleta para pequenas devoluções.
Uma bombona de 50, 100 ou 200 litros, tampa com rosca, e trazendo
simbologia de periculosidade. O comerciante teria duas, uma para embalagens
tríplice-lavadas e outra para embalagem não lavada.
O pequeno agricultor devolveria onde comprou e estamos conversados.
O comerciante, quando enchesse o recipiente, levaria (de carro) até
o Posto ou Central mais próximos, esvaziaria e voltaria com
o dito cujo, orgulhoso por estar prestando um bom serviço ao
seu cliente e a todos nós.
Agora o Programa
ganha mais crédito ainda. Finalmente estão sendo engajados
os 4 milhões de pequenos proprietários, por vezes esquecidos
nas escalas de produção agropecuária. Ainda temos
que estimulá-los mais, por ora, é um bom começo.
E, em áreas com distribuição dispersa, mais soluções
alternativas deverão surgir, com certeza.