Nº 042

Janeiro/2002
ILUSÃO EM ESCALA

ATO I

Oitocentos e cinqüenta milhões de hectares é a dimensão do território brasileiro. No entanto, cabe tudo nos mapas escolares com escala planimétrica em minguados 500 centímetros quadrados.
Outro dia, só por brincadeira, projetei num desses mapas, nas zonas agricultáveis, 90 pequenos círculos representando as Centrais estimadas do Programa de Recebimento das Embalagens Vazias de Produtos Fitossanitários. Em torno delas desenhei pequenos triângulos, eram os Postos de Recebimentos auxiliares da infraestrutura. Apenas cinco para cada Central, foram 450 triângulos. Foi o bastante, mais não cabiam, começavam a tangenciar-se.
Aí fui a Barreiras, oeste da Bahia, visitar a Central daquela região. Olhei em volta, chão pra todo lado. Peguei meu mapa e imaginei um Posto em Correntes, a 240 km, outro em Javi, a 110 km. Parei, pois lembrei a escala econômica. Recorri a algumas anotações sobre o consumo de defensivos e conferi: em toda a Bahia a demanda é de 2 milhões de embalagens por ano, cerca de 440 mil quilos/ano de sucata. Para a Bahia foram projetadas 5 Centrais (Ilhéus, Vitória da Conquista, Bom Jesus da Lapa e Teixeira de Freitas, além de Barreiras), ou seja, uma média de 88 mil quilos/ano/Central. A venda de parte dessa sucata (tríplice lavada) para reciclagem, poderá suportar os seus custos administrativos e operacionais. Mas, os Postos em volta também terão custos, que em parte poderão ser supridos pela receita da Central. Portanto, a infraestrutura, mesmo quando operando a toda, terá limites de auto-sustentação, regulados pela demanda regional.

ATO II

Resolvi visitar um plantador de algodão. O agrônomo da ADAB (Agência de Defesa Agropecuária) me levou em seu carro utilitário. Fazenda grande, sem casa-sede, só galpões para máquinas e pequenos ranchos de tábua para operários, vigias e tudo o mais que a gente precisa. Em um desses, estavam lá, à sombra, ventiladas, em piso de terra bem batida, um sem número de embalagens vazias. Iriam ser entregues na Central de Barreiras na camioneta F-150, 60 km pro norte.
No trajeto da volta, vimos uma casinha de reboco desgastado à frente de um roçado de milho e feijão, com galinhas ciscando e porcos grunhindo, claro. Perguntei ao homem que fazia capina mecânica (enxada, mesmo!) onde estavam as embalagens vazias dos agrotóxicos. Ele mostrou: atrás e encostado na casa, um cercadinho de tijolos crus, com três desses de alto, escorando uma pequena tábua larga, envergada em um lado, a servir de cobertura. Levantei a tábua, lá estavam: 1 vidro de inseticida e um frasco sem rótulo. Havia usado o inseticida para matar lagartas no milharal e o outro produto fora indicado para controlar a mosca branca que sempre infesta o feijão. E o rótulo?, indaguei. "Os porcos, seu moço, fuçam em tudo". Quis saber, então, se ele ia devolver lá na Central de Barreiras. Ele me olhou e perguntou se eu queria um cafezinho. Insisti, disse que era importante para o bem do meio ambiente... Finalmente, concordou. Pegou as 2 embalagens vazias e disse: "Eu vou com o senhor". Fomos, 40 km de utilitário. Ao entregar, recebeu um comprovante, guardou no bolso de trás da calça e apertou minha mão, despedindo-se. Fiquei pensando, como ele vai voltar? 40 km de carro, quantos são a pé? Alcançamos o homem e demos mais uma carona humanitária.

ATO III

Chapecó, Santa Catarina. Reunião da Promotoria Pública, Cooperativas, Revendedores, Fabricantes, Agricultores. Missão: organizar o projeto de Recolhimento das Embalagens Vazias da região. Lá pras tantas palestras e discussões, foi a vez da fala de um técnico da CIDASC (Companhia de Desenvolvimento Agrícola). Apresentou um kit-coleta para pequenas devoluções. Uma bombona de 50, 100 ou 200 litros, tampa com rosca, e trazendo simbologia de periculosidade. O comerciante teria duas, uma para embalagens tríplice-lavadas e outra para embalagem não lavada. O pequeno agricultor devolveria onde comprou e estamos conversados. O comerciante, quando enchesse o recipiente, levaria (de carro) até o Posto ou Central mais próximos, esvaziaria e voltaria com o dito cujo, orgulhoso por estar prestando um bom serviço ao seu cliente e a todos nós.

Agora o Programa ganha mais crédito ainda. Finalmente estão sendo engajados os 4 milhões de pequenos proprietários, por vezes esquecidos nas escalas de produção agropecuária. Ainda temos que estimulá-los mais, por ora, é um bom começo. E, em áreas com distribuição dispersa, mais soluções alternativas deverão surgir, com certeza.

AENDA - Associação Brasileira dos Defensivos Genéricos