Nº 045

Abril/2002
RESISTÊCIA VEM E VAI

Os jornais estampam o desenvolvimento de resistência do mosquito Aedes aegypti a alguns ingredientes ativos utilizados no combate ao vetor dos flavivírus, gênero de arbovírus causador do Dengue. A SUCEN, Superintendência de Controle de Endemias de São Paulo trocou o inseticida cipermetrina pelo malathion abolido em 1991 e na baixada santista investe no Bacillus thuringiensis var. israelensis em substituição ao larvicida temefós.

No contexto natural, a resistência não é criada, ela advém de um fator genético pré-existente em alguns indivíduos. Assim, existe uma correlação direta com o controle em massa das populações de pragas. Os indivíduos sem o fator-resistência são eliminados e a propagação daquela população passa a ser, paulatinamente mais por indivíduos sobreviventes, portadores do fator. É claro que ela pode surgir de mutações, que são fenômenos casuais na natureza ou até mesmo em decorrências das transposições genéticas de um organismo a outro de forma natural, embora ainda não totalmente comprovadas. A ciência não pode ainda determinar a previsibilidade do surgimento da resistência, mas um monitoramento cuidadoso pode observar essa pressão de seleção e construir curvas de tendências.

Em campanhas de saúde pública a pressão de seleção é forte, posto o uso maciço de um ou dois ingredientes ativos por um período continuado que abarca algumas gerações do alvo biológico. As nebulizações em volume/tempo podem oscilar muito e concentração errônea por área certamente acelera o processo da resistência. O treinamento sistemático dos aplicadores, a melhoria dos métodos e técnicas de aplicação e um controle de qualidade dos produtos empregados devem ser cuidadosamente planejados e perseguidos.

Da troca de produtos realizada pela SUCEN uma dedução interessante nos assalta: o fator-resistência nas populações dos mosquitos não tem manifesta perpetuação. Produto que vai é produto que vem anos depois, capaz de novamente controlar esses culicídeos.

No caso da agricultura a resistência se manifesta mais lentamente em razão da dispersão das aplicações e maior casualidade dos tipos de produtos utilizados.

Para o agricultor a resistência tem dramática importância, pois significa maior número de tratamentos e custos maiores ou, tanto pior, menor produtividade e abandono da cultura ou até mesmo da terra.

Mas não é preciso ficar de braços cruzados à espera do inevitável. Faça um planejamento de médio prazo para sua lavoura de amplitude comercial, digamos, para três safras, com aplicações de inseticidas, fungicidas e herbicidas levando em conta o arsenal de métodos e produtos à disposição para um manejo integrado das pragas. Lembre-se que existem diversos métodos de controle além do químico: culturais (uso de variedades resistentes, alteração da época do plantio, etc.), mecânicos (uso de barreiras, armadilhas, destruição dos restos de cultura, etc.), físicos (calor, frio, som, etc.), biológicos (introdução de parasitóides e predadores, preferência a produtos que afetam menos os inimigos naturais). Monitore sua lavoura, contando as pragas e só aplique produtos no limiar econômico dos custos de aplicação versus o prejuízo estimado; os institutos de pesquisa têm desenvolvido regionalmente esses indicadores. Outra coisa, dependendo da praga, verifique qual o estágio de vida mais susceptível ao controle dos produtos. Alterne os produtos que controlam a praga, de forma a realizar uma rotação entre ingredientes ativos com diferentes mecanismos de ação letal ao organismo da praga. Logicamente, o maquinário de aplicação deve estar bem vistoriado para não proporcionar cobertura desigual, neste mister não esqueça que volume e pressão empregados devem ser previamente estudados.

Como se vê, o controle de pragas é uma tarefa complexa. Utilize a assistência de um técnico experiente. Exija dele um quadro com todas as alternativas. Aplique custos nesses quadros. Não esqueça que existem produtos líderes e produtos genéricos similares ou, para empregar uma palavra mais moderna, equivalentes, contendo os mesmos ingredientes ativos. Decida você.

AENDA - Associação Brasileira dos Defensivos Genéricos