Nº 047

Junho/2002
REVERSÃO DA TECNOLOGIA

Existe em curso uma grande propaganda a favor de tecnologias antigas na agropecuária e, um combate à adoção das novas tecnologias e produtos, e de todo o sistema avançado que resultou no grande progresso da agropecuária nacional nos últimos dez anos, como foi evidenciado nos trabalhos do seminário "Impacto da Mudança Tecnológica do Setor Agropecuário na Economia Brasileira" e que podem ser conhecidos na Internet no site da EMBRAPA, onde ficou demonstrado que com a sua adoção houve aumento na produção, na produtividade, na melhor utilização dos recursos naturais, na diminuição de custos para os consumidores e aumento no lucro e no padrão de vida dos produtores.

Vem sendo condenada, por ONGs internacionais, a utilização da tecnologia em ecossistemas, por exemplo, como no caso dos cerrados, diretamente, alegando a preservação intocável desse ecossistema e, indiretamente se opondo à construção de estradas e hidrovias para o escoamento de sua produção.

A oposição ao uso de adubos, de corretivos do solo, de defensivos agrícolas modernos, de produtos da biotecnologia como os transgênicos, da produção em grande escala que resulta em menores custos e dá maior renda aos produtores que alcançam o padrão de vida de classe média comparável aos que trabalham nas cidades no setor serviços, tem partido de setores influenciados pelos países ricos importadores, principalmente europeus, porque alcançam vários objetivos: (1) o encarecimento de nossa produção acarretará perda para nós de competitividade, (2) possibilidade de colocarem barreiras aos nossos produtos, exigindo a rastreabilidade, na cadeia produtiva, e (3) diminuição da necessidade de subsídios elevados aos seus produtores aos quais não exigirão as mesmas condições.

A obediência a esses princípios por brasileiros é para aproveitar "nichos" de mercados, o que se generalizado não será verdade porque eles deixam de existir no momento em que são generalizadas as exigências.

No âmbito nacional o efeito social danoso é evidente. Alimento mais caro afeta mais intensamente as classes pobres que gastarão mais com o alimento sobrando menos para todas as demais necessidades como moradia, transporte, saúde, educação e diversões. É uma perseguição aos pobres. Para o comércio, indústria e serviços representará menor número de consumidores acarretando uma regressão no padrão de vida da população de menor renda e no desenvolvimento do País.

As bases de condenação do que chamam a agricultura tradicional, a que usa todas as modernas tecnologias estão, evidentemente, erradas. A idéia de que produtos orgânicos naturais são bons para a humanidade é romântica, porque a realidade é que as mortes naturais são causadas por substâncias orgânicas naturais. Chamar de "agrotóxicos " os defensivos agrícolas é equivalente a chamar de tóxicos todos os remédios fabricados. Usar os defensivos agrícolas quando eles são a melhor solução contra pragas e doenças é semelhante ao que os médicos fazem para combater as doenças quando receitam remédios em vez de dietas ou exercícios. Erros e exageros na sua aplicação são equivalentes ao que ocorre com o uso indiscriminado de remédios e não é aceitável que por isso não sejam recomendados e usados. Fazer uma política para que todos os que se dedicam à agropecuária sejam pequenos empresários é tão errado quanto no comércio acabar com os grandes supermercados e suas redes e no setor industrial se ter apenas pequenas fábricas. Devem coexistir empreendimentos de todos os tamanhos.

É impossível se abastecer o mundo de alimentos e produtos da agropecuária sem utilizar a tecnologia mais avançada e os povos e regiões que não as utilizam vivem na pobreza, assim como os que vivem do extrativismo da vegetação nativa e da caça e pesca primitiva.

Em conclusão, a campanha contra o uso da tecnologia mais avançada é prejudicial aos produtores, aos consumidores, ao desenvolvimento nacional e, por conseguinte deve ser combatida pelos mesmos métodos e intensidade com que ela é feita. Essa missão é dever dos profissionais do setor agropecuário, dos jornalistas que cobrem essa atividade, dos produtores rurais, dos políticos que administram a coisa pública, dos órgãos governamentais, especialmente, das instituições de pesquisa, as de divulgação e implantação de tecnologia.


* Artigo de Ady Raul da Silva, Engenheiro Agrônomo, Ph. D., Membro da Academia Brasileira de Ciências.

AENDA - Associação Brasileira dos Defensivos Genéricos