Existe em curso uma grande propaganda a favor
de tecnologias antigas na agropecuária e, um combate à
adoção das novas tecnologias e produtos, e de todo o
sistema avançado que resultou no grande progresso da agropecuária
nacional nos últimos dez anos, como foi evidenciado nos trabalhos
do seminário "Impacto da Mudança Tecnológica
do Setor Agropecuário na Economia Brasileira" e que podem
ser conhecidos na Internet no site da EMBRAPA, onde ficou demonstrado
que com a sua adoção houve aumento na produção,
na produtividade, na melhor utilização dos recursos
naturais, na diminuição de custos para os consumidores
e aumento no lucro e no padrão de vida dos produtores.
Vem sendo condenada, por ONGs internacionais, a utilização
da tecnologia em ecossistemas, por exemplo, como no caso dos cerrados,
diretamente, alegando a preservação intocável
desse ecossistema e, indiretamente se opondo à construção
de estradas e hidrovias para o escoamento de sua produção.
A oposição ao uso de adubos, de corretivos
do solo, de defensivos agrícolas modernos, de produtos da biotecnologia
como os transgênicos, da produção em grande escala
que resulta em menores custos e dá maior renda aos produtores
que alcançam o padrão de vida de classe média
comparável aos que trabalham nas cidades no setor serviços,
tem partido de setores influenciados pelos países ricos importadores,
principalmente europeus, porque alcançam vários objetivos:
(1) o encarecimento de nossa produção acarretará
perda para nós de competitividade, (2) possibilidade de colocarem
barreiras aos nossos produtos, exigindo a rastreabilidade, na cadeia
produtiva, e (3) diminuição da necessidade de subsídios
elevados aos seus produtores aos quais não exigirão
as mesmas condições.
A obediência a esses princípios por brasileiros
é para aproveitar "nichos" de mercados, o que se
generalizado não será verdade porque eles deixam de
existir no momento em que são generalizadas as exigências.
No âmbito nacional o efeito social danoso é
evidente. Alimento mais caro afeta mais intensamente as classes pobres
que gastarão mais com o alimento sobrando menos para todas
as demais necessidades como moradia, transporte, saúde, educação
e diversões. É uma perseguição aos pobres.
Para o comércio, indústria e serviços representará
menor número de consumidores acarretando uma regressão
no padrão de vida da população de menor renda
e no desenvolvimento do País.
As bases de condenação do que chamam
a agricultura tradicional, a que usa todas as modernas tecnologias
estão, evidentemente, erradas. A idéia de que produtos
orgânicos naturais são bons para a humanidade é
romântica, porque a realidade é que as mortes naturais
são causadas por substâncias orgânicas naturais.
Chamar de "agrotóxicos " os defensivos agrícolas
é equivalente a chamar de tóxicos todos os remédios
fabricados. Usar os defensivos agrícolas quando eles são
a melhor solução contra pragas e doenças é
semelhante ao que os médicos fazem para combater as doenças
quando receitam remédios em vez de dietas ou exercícios.
Erros e exageros na sua aplicação são equivalentes
ao que ocorre com o uso indiscriminado de remédios e não
é aceitável que por isso não sejam recomendados
e usados. Fazer uma política para que todos os que se dedicam
à agropecuária sejam pequenos empresários é
tão errado quanto no comércio acabar com os grandes
supermercados e suas redes e no setor industrial se ter apenas pequenas
fábricas. Devem coexistir empreendimentos de todos os tamanhos.
É impossível se abastecer o mundo de
alimentos e produtos da agropecuária sem utilizar a tecnologia
mais avançada e os povos e regiões que não as
utilizam vivem na pobreza, assim como os que vivem do extrativismo
da vegetação nativa e da caça e pesca primitiva.
Em conclusão, a campanha contra o uso da tecnologia
mais avançada é prejudicial aos produtores, aos consumidores,
ao desenvolvimento nacional e, por conseguinte deve ser combatida
pelos mesmos métodos e intensidade com que ela é feita.
Essa missão é dever dos profissionais do setor agropecuário,
dos jornalistas que cobrem essa atividade, dos produtores rurais,
dos políticos que administram a coisa pública, dos órgãos
governamentais, especialmente, das instituições de pesquisa,
as de divulgação e implantação de tecnologia.
* Artigo de Ady Raul da Silva, Engenheiro Agrônomo, Ph. D.,
Membro da Academia Brasileira de Ciências.