Na
edição de outubro esse editorial desnudou para o público
a grave ameaça da volta do monopólio na oferta do herbicida
glifosato, por conta do processo de “dumping” aberto pela
MONSANTO e NORTOX contra as parcas importações que algumas
indústrias nacionais fazem de matéria-prima da China,
transformando-a em produto técnico e daí em produto
formulado que oferecem ao agricultor brasileiro, mantendo acesa a
chama da concorrência, uma verdadeira âncora não
permitindo empuxo nos preços deste importante produto.
Na ocasião
não criticamos o governo, que a bem da verdade através
do seu departamento DECOM está investigando o assunto com mais
profundidade. Dirigentes da multinacional norte-americana, MONSANTO,
haviam feito declarações dando conta que a empresa estava
promovendo uma redução do preço no mercado internacional
para aquecer a demanda e deter a crescente concorrência de produtores
independentes. Também, a pressão dos preços da
matéria-prima chinesa sobre o produto acabado ofertado ao mercado
brasileiro, bem como o dano dessa conjuntura sobre as denunciantes
não foram satisfatoriamente comprovados. É evidente
que os preços já vinham declinando antes mesmo da entrada
dos asiáticos. Juntando tudo, a desconfiança se instalou.
Todavia, um departamento
vizinho àquele, o DECEX, pertencente ao mesmo Ministério
do Desenvolvimento e à mesma Secretaria-SECEX, estabeleceu
em março de 2002 um Preço Referência para a matéria-prima
procedente da China. Um verdadeiro veredicto sem julgamento, posto
que houve clara desobediência ao Decreto 1602/95, bem como ao
Artigo 12 do Acordo Sobre Implementação do Artigo VI
do Acordo Geral de Tarifas e Comércio de 1994 (Decreto 1355/94
promulgou esses dispositivos no Brasil). O objetivo foi alcançado:
afastou do mercado diversas pequenas empresas que estavam sem estoque,
com um simples toque no teclado do computador.
As transações
internacionais de Ácido Glifosato 95% (a matéria-prima
em questão) giram em torno de US$ 3,00 / kg. As importações
brasileiras e argentinas na faixa de US$ 2,80 / kg (são grandes
consumidores e com economias de baixa renda). Pois bem, o tal preço
referência foi estabelecido em US$ 9,80/kg Portanto um aumento
de 250 %. A medida kafkiana foi tomada de forma repentina, sem consultas
ou notificações e sem publicação no Diário
Oficial, e mais, simplesmente com base nas informações
contidas no dossiê entregue por MONSANTO/NORTOX. Os incautos
importadores só tomaram conhecimento quando ao desembaraçar
a mercadoria recebiam a burocrática exigência: “pague
o imposto de importação (14% na ocasião) sobre
US$ 9,80/kg e a mercadoria será liberada”. Ora, 14% sobre
9,80 é um custo a mais de US$ 1,37/kg, quase 50% a mais que
o preço real de compra. Os dispositivos anti-dumping legais
anteriormente citados estabelecem que quaisquer medidas provisórias
são cabíveis apenas se: (i) tiver ocorrido um processo
de consultas entre a administração aduaneira e o importador,
(ii) houver uma determinação preliminar positiva de
existência de dumping e conseqüente dano à indústria
doméstica, (iii) as autoridades decidirem que tais medidas
são necessárias para impedir a perpetuação
do dano durante a investigação, (iv) notificação
às partes interessadas, citando os critérios razoáveis
que levaram à medida, sendo que não podem incluir valores
aduaneiros mínimos e (v) publicação no Diário
Oficial.
Semanas após
tal medida, ao deparar com inúmeros argumentos contrários
da AENDA e de seus associados, aquele órgão de comércio
exterior reduziu o tal preço-referência de US$ 9,80 para
US$ 3,37 por kg. Mais algumas semanas e voltou a subir esse preço
referência para US$ 4,12 por quilo, quando percebeu que aquele
novo preço ainda deixaria alguma margem para lucro para a Indústria
Nacional restante. Também, é interessante observar que
o Diretor do DECOM foi afastado do cargo. Ocorreram pressões
ocultas no DECEX, em razão do DECOM estar demorando a concluir
o processo?
Por que essa barreira
contra o Ácido Glifosato chinês, que representa apenas
6% do mercado brasileiro do insumo? Será alguma forma de contra-atacar
as barreiras dos países mais ricos contra o açúcar
ou suco de laranja nacional ou mesmo porque ousamos exportar aço
em vez de minério de ferro? Se for, por favor, alguém
precisa avisar o governo que está destruindo o pequeno parque
de empresas plenamente nacionais deste setor em prol de uma empresa
estrangeira aqui instalada que detém 80% do fornecimento deste
insumo. Alguém precisa avisar o governo que está pondo
em risco os preços dos alimentos, inflacionando a base dos
insumos via a contração da oferta, no caso patrocinando
a volta de um execrável duopólio de passado recente.
ESTAMOS EM JANEIRO
DE 2003 E ESSA INCOMPREENSÍVEL ARBITRARIEDADE AINDA ESTÁ
EM VIGOR.
Essa história
precisa ficar registrada; não nas gavetas do Ministério
do Desenvolvimento, mas aqui nas páginas democráticas
deste periódico que é lido pelo grande público
que faz a agricultura nacional.
Ah, se o novo
ministro lesse essas linhas e recolocasse ordem na casa!