Nº 058

Junho/2003
MARACUJÁ NO PARREIRAL

O êxodo bíblico, narrado no Antigo Testamento e comandado por Moisés, foi precedido de dez pragas até o rei do Egito acreditar ser uma determinação divina e permitir a saída do povo israelita. A água do Nilo virou sangue; o Nilo ficou cheio de rãs; os piolhos cobriram as pessoas e animais; as moscas invadiram as casas; os animais morreram de uma horrível doença; tumores e úlceras cobriram pessoas e animais; chuva de pedra e raios destruiu o linho em flor e a cevada com espigas; gafanhotos arrasaram o trigo, o centeio e as frutas; escuridão aterrorizou a todos; e, finalmente, a morte ceifou todos os primogênitos egípcios.

Percebam que entre as dez pragas, ao menos três foram de insetos, uma de batráquios e duas de doenças patogênicas. Portanto, pragas de insetos e pragas de doenças, além de pragas de outra ordem, segundo o livro sagrado.

Já na Bíblia do Novo Testamento, escreveu Mateus no Capítulo 13: “Jesus contou uma parábola: certa noite, quando todos estavam dormindo, veio um inimigo, semeou no meio do trigo uma erva ruim chamada joio e, depois foi embora. Quando as plantas cresceram, e se formaram as espigas, o joio apareceu...deixem o trigo e a praga da cizânia crescerem juntos até o tempo da colheita...arranquem primeiro o joio, amarrem em feixes e queimem; depois colham o trigo e ponham no depósito”. Uma praga de ervas daninhas.

O mundo girou e o olhar das pessoas sobre tudo em volta foi acumulando complexidade. A taxonomia foi criando agrupamento de animais, filos de plantas, classificando os agentes patogênicos e tudo o mais vivo. As cidades foram crescendo e os urbanos se dissociando dos rurícolas. A terminologia popular foi recriada aqui e ali. Praga foi reduzida a insetos, ácaros e outros bichos asquerosos e visíveis. Depois da lepra, da varíola, da tuberculose, da mela da batata, do cancro cítrico....doença passou a ser enquadrada em outro diedro, designando aquele mal invisível, procedente de misteriosos fungos, nematóides, bactérias ou vírus. Ervas ruins mantiveram-se como tais, posto que mais circunscritas ao mundo rural; quiçá, com nome mais racionalizado: planta infestante.

Com as trocas de mercadorias entre os povos, seres nocivos alcançaram terras dalém mar. Surgiram as pragas exógenas e, em subseqüência, toda uma necessidade de fiscalização dos pontos de entrada e saída das mercadorias no afã de impedir as nefastas disseminações desses seres, ora o fungo da ferrugem nos cafezais ora o besouro chinês nas áreas reflorestadas. Quarentena. Área livre de ocorrência. Certificação Fitossanitária. Linguajar entre os países, harmonizando as regras de controle.

Para essa nova organização fitossanitária internacional as pragas foram reunificadas. No âmbito da OMC, o Acordo Multilateral SPS – Aplicação de Medidas Sanitárias e Fitossanitárias restabeleceu o seguinte conceito de praga: “qualquer espécie, raça ou biótipo de vegetais, animais ou agentes patogênicos, nocivos para os vegetais ou produtos vegetais”.

Portanto, gerações de agora e futuras, evitem a redundância das expressões “pragas e doenças” ou “pragas, doenças e ervas daninhas”, tão comum nos livros, revistas, folhetos, artigos, trabalhos científicos, promoção de congressos. Vamos recuperar a simplicidade: foi nocivo é praga. Praga é tudo que pragueja, que causa dano às plantações, sejam insetos, ácaros...fungos, bactérias...ervas daninhas ou... maracujá no parreiral.

AENDA - Associação Brasileira dos Defensivos Genéricos