Nº 061

Setembro/2003
POR FAVOR, NÃO AJUDEM A AGRICULTURA

Abrimos novamente espaço para um artigo de Polan Lacki, profundo conhecedor da agricultura latino-americana. Pena que o texto completo não caiba aqui, obrigando-nos a fazer alguns cortes. Para ler mais acesse www.polanlacki.hpg.com.br

Em apenas 12 anos a agricultura brasileira duplicou a sua produção de grãos, passando de 58 para 115 milhões de toneladas por ano; adicionalmente obteve significativos aumentos na produção e exportação de outros bens agrícolas e pecuários. Sem anúncios nem celebrações, o agronegócio assumiu o papel de "locomotiva" da economia brasileira que está dando uma enorme ajuda na solução dos problemas nacionais.

Nesses mesmos 12 anos os governos não formularam macro-políticas de apoio ao desenvolvimento da agricultura, não fizeram grandes investimentos em infra-estruturas de estradas, portos e armazenagem, não instituíram o desejado seguro agrícola. Reduziram o montante do crédito rural oficial e debilitaram instituições públicas de educação, pesquisa e extensão agrícola. Aumentaram alguns impostos, privatizaram as rodovias e instituíram pedágios que oneraram os custos de produção e de distribuição das colheitas. Não concederam subsídios aos nossos produtores e não adotaram importantes medidas tarifárias de proteção contra a importação de produtos agrícolas do estrangeiro.

Nesse período algo similar ocorreu no âmbito externo: o FMI, a OMC e o Banco Mundial não modificaram as suas políticas em relação à agricultura, os preços dos nossos produtos de exportação nem sempre foram favoráveis, os países ricos continuaram subsidiando fortemente os seus agricultores e impondo crescentes restrições, tarifárias e não tarifárias, à importação das nossas colheitas.

Esta contradição entre a inércia dos governos e o êxito da agricultura, é tão surpreendente e importante que não pode ser ignorada nem sequer subestimada. Ela denuncia que as antigas "receitas' e as frondosas burocracias públicas encarregadas de executá-las foram um gigantesco desperdício de recursos e um rotundo fracasso. Enquanto elas estavam vigentes, em vez de estimular as iniciativas dos agricultores e promover o desenvolvimento do setor agropecuário, produziram um efeito contrário.

A duplicação da produção dos grãos, na verdade, deve ser creditada a uma minoria de agricultores, mais lúcida e progressista, que se cansou das reivindicações utópicas dos seus próprios líderes, das propostas ingênuas de certos "especialistas" em desenvolvimento agrícola e da ineficiência do Estado. Esta minoria, que com certeza não chega a 10% dos produtores rurais, foi a que, em grande medida, contribuiu à duplicação aqui descrita. Esta minoria decidiu ignorar a retórica paternalista e, tomar em suas próprias mãos, a correção das ineficiências do agronegócio, fazendo-o dentro das suas propriedades e, em certos casos, organizando-se para fazê-lo fora das porteiras das mesmas. Os agricultores que protagonizaram esta "revolução" produtiva foram premiados com um grande êxito econômico; não porque as políticas tenham sido favoráveis ou porque os governos tenham sido generosos na injeção de recursos à agricultura, mas sim porque eles se tornaram mais eficientes. No entanto, ainda não podemos entusiasmar-nos com este êxito, porque ele é muito parcial e excludente.

É parcial porque os agricultores que já atingiram essa maior eficiência ainda podem tornar-se muito mais eficientes e conseqüentemente muito mais bem sucedidos na atividade agrícola. Para isto necessitam executar uma segunda etapa de inovações. Nesta segunda etapa necessitarão aumentar ainda mais os seus rendimentos por unidade de terra e de animal, diversificar a produção para reduzir a dependência do crédito rural e para evitar riscos desnecessários, reduzir perdas durante e depois da colheita, melhorar a qualidade dos seus produtos e incorporar-lhes valor, racionalizar a administração das suas propriedades para eliminar super dimensionamentos e ociosidades nelas existentes e, especialmente, corrigir os erros que eles continuam cometendo tanto na aquisição dos insumos como na comercialização dos seus excedentes.

É Excludente porque os outros 90% de agricultores, carentes de conhecimentos e espírito empresarial, ainda são vítimas de desatualizados "especialistas e líderes" rurais que continuam iludindo-os com obsoletas, utópicas e ineficazes ajudas paternalistas; e mantendo esta maioria no círculo vicioso da ineficiência, da dependência e da pobreza rural. Tais "especialistas e líderes" continuam propondo que os agricultores mendiguem créditos que não conseguirão devolver e cestas básicas que apenas alimentarão o seu sentimento de incapacidade; em vez de recomendar-lhes que exijam dos seus governos uma educação rural de qualidade que ensine, a eles e aos seus filhos, os conhecimentos úteis, as aptidões e as atitudes que necessitam adquirir para que eles também possam fazer algo similar ao que fizeram os agricultores inovadores; e, através desta medida realista, tornem-se menos dependentes de um Estado que está cada vez mais debilitado, empobrecido e inoperante.

A estes 90% de agricultores que ainda não conseguiram participar desta extraordinária revolução de eficiência e de produtividade na agricultura, o sistema educativo rural (escolas fundamentais rurais, escolas agrotécnicas, faculdades de ciências agrárias e serviços de extensão rural ) deverá proporcionar as competências necessárias; a fim de que eles também possam incorporar-se ao grupo daqueles que tomam iniciativas, que introduzem inovações, que corrigem as suas próprias ineficiências; isto é, ao grupo daqueles que solucionam os seus próprios problemas em vez de continuar esperando que outros o façam por eles. O referido sistema educativo deverá formá-los e capacitá-los para que estejam em condições de progredir através da sua própria vontade, esforço e capacidade.Com tal objetivo o Estado moderno deverá promover uma profunda "revolução" na qualidade e na pertinência dos conteúdos do sistema educativo rural. Os seus conteúdos curriculares e os seus métodos de ensino deverão ser submetidos a uma radical transformação de realismo, de objetividade, de pragmatismo e de adequação às verdadeiras necessidades das famílias rurais.Os referidos conteúdos deverão ser úteis para que sejam aplicáveis, pelos próprios educandos, na correção das ineficiências e na solução dos problemas que eles enfrentam na vida cotidiana dos seus lares, propriedades, comunidades e mercados rurais.Transmitir conhecimentos úteis é a principal missão de uma educação útil.

AENDA - Associação Brasileira dos Defensivos Genéricos