Com a economia desalinhada do restante
do mundo nos macros e fundamentais parâmetros como juros do
capital e carga tributária, o Brasil às vezes se atrapalha
no rumo de suas atividades produtivas. Devemos ser auto-suficientes
em trigo ou importar todo o trigo porque lá fora, em algum
país, é produzido mais barato?
No caso dos defensivos agrícolas chamou-nos
a atenção o pedido que o Ministério da Agricultura
protocolou na CAMEX em janeiro. Certamente, pressionado por correntes
representativas dos agricultores, apresentou uma proposta para reduzir
a alíquota de importação para zero (atualmente
é 14%) dos produtos formulados à base de 2,4-d, mcpa,
atrazina, alaclor, diuron, ametrina, glifosato, imazaquim e lactofen.
O conjunto desses produtos representa cerca de 50%
da quantidade de todos os defensivos agrícolas usados no país,
sendo que o glifosato sozinho abrange quase 70% do grupo.
Entretanto grande parte deste conjunto é composta
por produtos de múltipla oferta, ou seja, são considerados
genéricos e com preços já achatados pela própria
concorrência ao longo dos anos.
Vejamos na tabela três casos entre esses produtos,
com base nos valores da moeda de 2002, em Reais (valores arredondados):
Produto |
1989 |
1993 |
1997 |
2002 |
Comentários |
Valores
por litro de produto |
| Glifosato 48% SL |
51,00 |
27,00 |
13,00 |
9,43 |
Queda provocada pelo constante aumento da concorrência
|
| Imazaquim 16,1% SL |
83,00 |
42,00 |
42,00 |
50,00 |
Reflexo da concorrência, embora menor que
no caso do Glifosato |
| Lactofen 24% EC |
xxxxx |
47,00 |
47,00 |
62,00 |
Pouca concorrência |
O que os agricultores vão ganhar importando
produtos formulados genéricos? Talvez, alguns trocados, quando
a origem for a ultracompetitiva China, em razão de seus custos
consideravelmente menores que os brasileiros (juros, impostos, taxas,
salários, etc.). Atente-se que para o glifosato de nada adiantaria
essa medida, pois continua em vigor o anti-dumping de 38,5%, quando
trazido da China.
O que o país vai perder? Com certeza, sucateamento de fábricas,
de fornecedores e dos serviços que co-existem na órbita
delas, perda de empregos e perda do esforço desenvolvimentista
e tecnológico acumulado.
Nunca é demais lembrar que até a década
de 90 pouco importávamos de produtos formulados. Hoje, por
conta justamente do continuado alto custo Brasil e diminuição
não seletiva das alíquotas de importação
disparada pelo governo Collor as empresas aqui instaladas já
substituíram parte das suas produções internas
por importações de suas matrizes ou subsidiárias
mais competitivas, um ajuste de mercado em resposta a uma decisão
governamental. Segundo o SINDAG, em 1998 o Brasil importava US$ 284
milhões de produtos formulado, em 2003 já atingiu a
marca dos US$ 486 milhões.
Enquanto a conjuntura econômica for tão
díspar o país deve manter mecanismos de defesa de sua
base industrial, agrícola ou de serviços. Esse tipo
de situação deve ser tratado de forma coordenada por
vários ministérios, pois existem limites mínimos
de preservação da capacidade nacional para que os conhecimentos
produtivos adquiridos não se dissipem pelo ralo da conjuntura
momentânea e o imediatismo dos gestores.
Na verdade, a
medida correta para aumentar a concorrência entre os defensivos
agrícolas foi tomada no início de 2002, com a edição
do Decreto 4074 que instituiu o registro de produtos pela equivalência
química. Estamos em fevereiro de 2004 e o regime da equivalência
continua travado, nenhum registro.
O não funcionamento desse mecanismo impede que os novos produtos
lançados na década de 80 sejam ofertados de forma diversificada.
Incluímos na tabela o produto lactofen apenas para exemplificar
essa assertiva, embora não seja um produto de largo consumo.
Com esse mecanismo funcionando, as empresas nacionais voltarão
a crescer e as estrangeiras virão para cá, pressionando
os preços, formulando e gerando empregos aqui, além
de tornar esses produtos acessíveis a uma boa parte dos agricultores.
Reside aí a chave certa para abrir a pesada porta do oligopólio
e conseqüente diminuição dos custos da utilização
desses insumos na agricultura.