Nº 071

Julho/2004
BUNGA SAGA 10

O povo cercado pela grande muralha tem fome de soja e a nação do berço esplêndido está produzindo a oleaginosa como nunca. Negócios fechados em março a US$ 10,50 / bushel (27,2 kg) e preço subindo.
Navios em fila com porões abarrotados singram o atlântico, o índico e o pacífico até aportarem em Macao, Hong Kong, Xiamen, Shangai e Tianjin. Exportadores e importadores riem à toa. Vale esmagar soja tradicional, soja transgênica, é só dizer o que é, sem problema. Gravetos, pedregulhos, sementes estranhas, pedaços de ervas daninhas e restos de insetos se perdem no mundão de grãos e desaparecem da vista dos fiscais fitossanitários, lá e cá.

Mas uma outra onda se alastrava no território amarelo. A Influenza aviaria atacava firme nas granjas chinesas. Menos galinha menos farelo. Os estoques começaram a emperrar nos silos das esmagadoras. A banca percebeu e enxugou o crédito.
O ouro verde começou a escorregar na rampa da oferta sul-americana e derrapar no óleo derramado da menor demanda asiática. Vale menos agora em maio que o contratado nos festejados negócios. Bem menos. A US$ 8,60 / bushel tem comprador internacional virando a cara.

Do porto do Rio Grande chega carga em Tianjin sem saber das últimas notícias. Fervilham técnicos em volta. Amostra daqui, fotografa dali. Cadê o certificado fitossanitário? Trataram ou não com fosfina? O que são aqueles grãozinhos cor-de-rosa acolá?

Coletam grão colorido, analisam. Não dá outra. É CARBOXIN, fungicida usado em semente para plantio, contaminando o rico alimento e pondo em sério risco a saúde da população da China. Cabograma, e-mail, telefonema. Devolve a carga pró Brasil. O que eles pensam que nós somos? Vive o mundo falando que nossas fábricas são sujas, só produzimos com impurezas e, agora, querem que aceitemos soja impura. Não. Tolerância zero prá eles. Brasil no meio.

Tudo isso às vésperas da visita do mandarim brasileiro e sua comitiva para vender mais alimento, ferro, urânio e o que der. Itamarati pressiona o Ministério da Agricultura. Este cai matando nas exportadoras do Rio Grande do Sul. Exige responsabilidade e grãos limpos, na conformidade da cartilha do Ministério. Faz até voltar navio. Técnicos enviados a Pequim pedem mil desculpas pela carga colorida.

Ponto para o dragão. Pausa no samba que o crioulo precisa pensar. O Brasil precisa acordar de vez para as barreiras fitossanitárias. A tolerância varia de zero a nove, numa escala de dez, dependendo da necessidade do cliente. É preciso capacitar nossos negociadores e ampliar, e muito, a estrutura da fiscalização. Por favor, primeiro estruturem, depois apertem com normas e decretos. O inverso tem sido catastrófico.

Neste caso particular, por exemplo, que mal faz à população algumas sementes indevidamente misturadas aos grãos? O limite máximo de resíduos permitido para a presença de Carboxin é 0,2 miligramas por quilo de soja. Dentro deste limite, com grande margem de segurança, uma pessoa que coma soja todo o dia e durante os 365 dias do ano não sofrerá absolutamente nada. Muito bem, isso nos leva a imaginar quanto de semente tratada com o fungicida estaria misturado nas 59.000 toneladas, a carga daquele navio. Para chegar no limite do fator de segurança acima citado, em primeiro lugar precisariam ser encontradas 11.800 g de carboxin em todo o lote. Para atingir isso teriam que ter misturado 19,67 toneladas de semente tratada, pois a dose do produto mais usado (mistura de carboxin com thiram) é 60 gramas do ingrediente ativo carboxin por 100 kg de semente. Haja desvio de semente para uma só carga. Pelo amor de Deus, não falem do thiram que eles ainda não sabem!

Os técnicos brasileiros que foram lá pedir as diplomáticas desculpas, deviam também, de forma pragmática e científica, coletar amostras do grande lote e quartear as mesmas com os colegas de olhos puxados. Com resultados em mão, aí sim, negociar.

Em tempo: BUNGA SAGA 10 é o nome de um dos navios envolvidos no episódio

AENDA - Associação Brasileira dos Defensivos Genéricos