O povo cercado pela grande muralha
tem fome de soja e a nação do berço esplêndido
está produzindo a oleaginosa como nunca. Negócios fechados
em março a US$ 10,50 / bushel (27,2 kg) e preço subindo.
Navios em fila com porões abarrotados singram o atlântico,
o índico e o pacífico até aportarem em Macao,
Hong Kong, Xiamen, Shangai e Tianjin. Exportadores e importadores
riem à toa. Vale esmagar soja tradicional, soja transgênica,
é só dizer o que é, sem problema. Gravetos, pedregulhos,
sementes estranhas, pedaços de ervas daninhas e restos de insetos
se perdem no mundão de grãos e desaparecem da vista
dos fiscais fitossanitários, lá e cá.
Mas uma outra onda se alastrava no território
amarelo. A Influenza aviaria atacava firme nas granjas chinesas. Menos
galinha menos farelo. Os estoques começaram a emperrar nos
silos das esmagadoras. A banca percebeu e enxugou o crédito.
O ouro verde começou a escorregar na rampa da oferta sul-americana
e derrapar no óleo derramado da menor demanda asiática.
Vale menos agora em maio que o contratado nos festejados negócios.
Bem menos. A US$ 8,60 / bushel tem comprador internacional virando
a cara.
Do porto do Rio Grande chega carga em Tianjin sem
saber das últimas notícias. Fervilham técnicos
em volta. Amostra daqui, fotografa dali. Cadê o certificado
fitossanitário? Trataram ou não com fosfina? O que são
aqueles grãozinhos cor-de-rosa acolá?
Coletam grão colorido, analisam. Não
dá outra. É CARBOXIN, fungicida usado em semente para
plantio, contaminando o rico alimento e pondo em sério risco
a saúde da população da China. Cabograma, e-mail,
telefonema. Devolve a carga pró Brasil. O que eles pensam que
nós somos? Vive o mundo falando que nossas fábricas
são sujas, só produzimos com impurezas e, agora, querem
que aceitemos soja impura. Não. Tolerância zero prá
eles. Brasil no meio.
Tudo isso às vésperas da visita do mandarim
brasileiro e sua comitiva para vender mais alimento, ferro, urânio
e o que der. Itamarati pressiona o Ministério da Agricultura.
Este cai matando nas exportadoras do Rio Grande do Sul. Exige responsabilidade
e grãos limpos, na conformidade da cartilha do Ministério.
Faz até voltar navio. Técnicos enviados a Pequim pedem
mil desculpas pela carga colorida.
Ponto para o dragão. Pausa no samba que o crioulo
precisa pensar. O Brasil precisa acordar de vez para as barreiras
fitossanitárias. A tolerância varia de zero a nove, numa
escala de dez, dependendo da necessidade do cliente. É preciso
capacitar nossos negociadores e ampliar, e muito, a estrutura da fiscalização.
Por favor, primeiro estruturem, depois apertem com normas e decretos.
O inverso tem sido catastrófico.
| Neste
caso particular, por exemplo, que mal faz à população
algumas sementes indevidamente misturadas aos grãos?
O limite máximo de resíduos permitido para a presença
de Carboxin é 0,2 miligramas por quilo de soja. Dentro
deste limite, com grande margem de segurança, uma pessoa
que coma soja todo o dia e durante os 365 dias do ano não
sofrerá absolutamente nada. Muito bem, isso nos leva
a imaginar quanto de semente tratada com o fungicida estaria
misturado nas 59.000 toneladas, a carga daquele navio. Para
chegar no limite do fator de segurança acima citado,
em primeiro lugar precisariam ser encontradas 11.800 g de carboxin
em todo o lote. Para atingir isso teriam que ter misturado 19,67
toneladas de semente tratada, pois a dose do produto mais usado
(mistura de carboxin com thiram) é 60 gramas do ingrediente
ativo carboxin por 100 kg de semente. Haja desvio de semente
para uma só carga. Pelo amor de Deus, não falem
do thiram que eles ainda não sabem! |
Os técnicos
brasileiros que foram lá pedir as diplomáticas desculpas,
deviam também, de forma pragmática e científica,
coletar amostras do grande lote e quartear as mesmas com os colegas
de olhos puxados. Com resultados em mão, aí sim, negociar.
Em tempo: BUNGA SAGA 10 é o nome
de um dos navios envolvidos no episódio