Existe
uma fronteira entre a utilização dos pesticidas e o
risco que correm as pessoas ao comerem seu alimento diário
contendo possíveis resíduos deles. Essa fronteira é
constantemente monitorada pelos cientistas (toxicologistas, nutricionistas,
analistas de riscos, etc.), podendo ser alargada ou estreitada conforme
os dados vão se acumulando e situações específicas
se apresentam.
A forma de ajustar
a largura dessa fronteira é contrair ou expandir os valores
dos fatores de segurança que são os parâmetros
estabelecidos pelos cientistas para dormirem sossegados, sem qualquer
resquício de consciência pesada em relação
a possíveis erros de cálculo que colocasse em risco
a população. Devo, aliás, informar (ou seria
acalmar?) os leitores que os cientistas neste aspecto agem conservadoramente,
de modo quase covarde: a todo momento inserem um fator de segurança
em suas fórmulas de risco e protocolos de testes toxicológicos.
Começa
em qualquer teste toxicológico. Como não podem usar
uma infinidade de animais de experimentação para reduzir
a incerteza estatística, eles aumentam a dose maior testada.
São portanto administradas doses fora da realidade do uso do
pesticida. Aí surge o primeiro e talvez o maior dos fatores
de segurança. Alguns exagerados críticos dizem que assim
até água pode causar tumores ou outros sintomas. Esse
fator é cumulativo, pois que se agrega a outros fatores de
segurança.
Um incrível
acervo de estudos toxicológicos, farmacocinéticos e
de metabolismo em animais de experimentação serve para
fixar qual a dose que não apresenta qualquer efeito adverso
no animal mais sensível. Vale informar que as observações
são feitas em toda a vida do animal e, paralelamente em progênies.
Um último cuidado: se os ratos se mostram mais sensíveis
que camundongos e cães na aplicação de determinado
pesticida, são os resultados em ratos que serão escolhidos;
não importa se os cães estão mais próximos
dos humanos na escala de gradação dos mamíferos.
Anote aí, este é um outro fator de segurança.
A essa dose em que não são observados efeitos adversos
os cientistas dão o nome de NOAEL.
Além do
mais, observa-se durante os estudos que os resultados diferem de animal
para animal. Logo, é bem possível que também
ocorrerá essa variação nos humanos. Essa variabilidade
é superestimada na grandeza de 10 vezes. Superestimada talvez
seja força de expressão, pois essa variação
intraespecífica alcança inclusive crianças e
idosos. Segurança, não perca a conta.
Como não
é possível testar o pesticida diretamente nos humanos,
a solução é extrapolar esses dados cuidadosa
e seguramente definidos nos animais de experimentação
para nós outros. Mas a passagem de dados de uma espécie
para outra merece um fator de segurança, ou não? Que
tal mais um de grandeza 10? Pois é justamente esse o valor
definido a partir de comparações dos perfis farmacocinéticos
e farmacodinâmicos entre espécies.
Desta maneira
surge a fórmula NOAEL / 10 x 10 = Ingestão Diária
Aceitável (ADI) para humanos. As siglas são inglesas.
Mas isso não importa, o que você deve observar é
que quando o assunto é segurança um fator não
é somado ao outro, é multiplicado.
Esses fatores
estão sempre sendo revistos à luz de novas informações,
e, para cada pesticida o fator 100 pode ser aumentado ou diminuído.
Poderá ser menor se você dispõe de informações
que levem a alguma concessão na fronteira da segurança;
normalmente ocorre com produtos mais antigos, onde a catalogação
de dados em humanos é mais sólida. Por seu turno, poderá
ser maior se você desconhece alguns dados, como por exemplo,
a completa toxicologia de metabólitos do produto.
Se
os cientistas dormem tranqüilos por quê você
não? |