A complexidade das diferenças
entre as leis que regem os espaços macro-cosmológicos
e os micro-quânticos deixa os físicos malucos. Uma parte
deles tenta explicar essas diferenças concebendo a idéia
da existência de universos paralelos. Pode até ser uma
concepção delirante, mas nem tanto, aqui mesmo, no nosso
mundo dos pesticidas eles co-existem.
No ambiente domiciliar e urbano os produtos são saneantes desinfestantes,
e seguem a Lei 6.360/1976, cujo guardião é o MIN.SAÚDE;
já no ambiente zoo pontuam os produtos veterinários,
regidos pelo Decreto-Lei 467/1969, com comando executivo do MIN. AGRICULTURA;
enquanto no universo das lavouras agrícolas nascem e morrem
os agrotóxicos, disciplinados pela Lei 7.802/89, com triplo
comando: MAPA, IBAMA e ANVISA.
São leis diferentes para universos paralelos. Mesmo albergando
astros-produtos de natureza química semelhantes, têm
ambientes tão diversos que os cientistas não sabem unificá-las.
Acompanhem a narrativa e avaliem.
A família dos pesticidas organofosforados já é
carta a ser descartada pelas grandes empresas que dominam o mercado.
Famílias novas prosperam, até se transformarem em produtos
genéricos, com preços baixos e, pior, lucros pequenos,
– espinhos que incomodam o sistema capitalista oligopolizado.
O Clorpirifós, um dos relativamente menos agressivos à
saúde e mais eficientes biocidas organofosforados ainda sobrevive,
apesar do desprezo e abandono dos seus criadores e cerrado tiroteio
das coniventes agências reguladoras.
Nos últimos anos esse produto passou por uma
reavaliação dentro do UNIVERSO FITOSSANITÁRIO.
Para mitigar riscos à população foram excluídas
de sua monografia as culturas de feijão, maçã
e tomate. Meses depois, a ANVISA convencida que os relatos de intoxicações
eram mais fruto da má aplicação por parte do
lavrador e não do potencial de agressividade intrínseco
do produto, retirou as culturas do castigo e absolveu o Clorpirifós,
desde que as pulverizações não fossem via os
perigosos aplicadores costais. Lagartas, pulgões, cochonilhas
não se livraram deste algoz.
Todavia, um acidente ocorreu no final dos anos 90,
em Porto Alegre/RS. UNIVERSO DOMISSANITÁRIO. Um Zé Bombinha
foi contratado para aplicar desinfestante em postos de saúde
de uma rede hospitalar. As formigas, os cupins e as baratas estavam
irritando pacientes e funcionários. Azar geral, muitos funcionários
se queixaram de desconforto e relataram diversos sintomas. Fato curioso
é que os pacientes nada acusaram. Os laudos processuais não
comprovam se realmente foi o Clorpirifós o biocida usado. (O
leitor já teve dor de cabeça, fraqueza, mal estar? Se
observou esses três sintomas recentemente, cuidado, pois pode
não ser doença orgânica e sim estar sendo vitimado
por um venenoso organofosforado, que desapercebidamente respirou em
seu condomínio residencial). O Zé Bombinha deve ter
usado um piretróide, pois a aplicação era em
um hospital e o mais usual era lançar mão de uma família
toxicologicamente menos agressiva. Mas, esqueceu que certos piretróides
são mal cheirosos e podem despertar reações psico-somáticas,
conhecidas por Síndrome da Exposição a Múltiplas
Substâncias Químicas. Pode, também, ter
usado qualquer outra coisa, inconfessável. Enfim,
o Zé Bombinha não soube confirmar que produto utilizou
e os investigadores recorreram a sofisticados cromatógrafos
e analisaram as poeiras das mesas, dos rodapés, das caixas
de papelão nos almoxarifados, até encontrar vestígio
de pesticida. Em uma amostra apareceu o Clorpirifós, o qual
foi imediatamente associado aos sintomas relatados (a bula do produto
aponta também esses sintomas), e conclusão dos Sherlocks
de plantão: o Clorpirifós foi o agente culposo. O Zé
Bombinha fugiu, ninguém sabe dele. A Justiça apertou
a ANVISA. Aproveitando a reavaliação em curso no universo
fito a ANVISA baniu de imediato o produto apenas no universo domi.
Em defesa dos gravíssimos prejuízos que a drástica
atitude provocou em diversass empresas associadas, a AENDA, se manifestou
dizendo que a reavaliação era de outro universo e que
fosse respeitada a Lei do universo domi.
Mas, o rolo compressor já estava com velocidade
e não foi possível pará-lo. Mas como, as leis
não são DIFERENTES? São, mas a Justiça
às vezes é INDIFERENTE. Foi pesticida, foi agrotóxico
e, em especial esses que não dão bons lucros, pau neles!
Banimento de imediato, sem fase de transição. Sobrou
para as empresas, que engoliram os estoques e algumas deram sinais
de falência financeira generalizada.
Pacata e paralelamente, no UNIVERSO ZOOSANITÁRIO,
o Clorpirifós continua sendo um carrapaticida com custo-benefício
mais apropriado aos recursos do homem rural. E, além do mais,
animal que não apresenta sinais claros não pode ser
considerado intoxicado. Lembre-se que os animais não contam
os sintomas. Já ouviu algum jegue reclamar de dor de cabeça
ou que ficou impotente? Naquele universo não há erro
de diagnóstico induzido por sintomas.
Os cientistas
não sabem unificar as leis, mas a JUSTIÇA e a ANVISA
dão mostras que conseguiram criar um outro universo. Um, onde
tudo pode, o universo do caos.