Nº 086

Outubro/2005
RÉQUIEM PARA O CHLORPYRIFOS

A complexidade das diferenças entre as leis que regem os espaços macro-cosmológicos e os micro-quânticos deixa os físicos malucos. Uma parte deles tenta explicar essas diferenças concebendo a idéia da existência de universos paralelos. Pode até ser uma concepção delirante, mas nem tanto, aqui mesmo, no nosso mundo dos pesticidas eles co-existem.
No ambiente domiciliar e urbano os produtos são saneantes desinfestantes, e seguem a Lei 6.360/1976, cujo guardião é o MIN.SAÚDE; já no ambiente zoo pontuam os produtos veterinários, regidos pelo Decreto-Lei 467/1969, com comando executivo do MIN. AGRICULTURA; enquanto no universo das lavouras agrícolas nascem e morrem os agrotóxicos, disciplinados pela Lei 7.802/89, com triplo comando: MAPA, IBAMA e ANVISA.
São leis diferentes para universos paralelos. Mesmo albergando astros-produtos de natureza química semelhantes, têm ambientes tão diversos que os cientistas não sabem unificá-las.

Acompanhem a narrativa e avaliem.
A família dos pesticidas organofosforados já é carta a ser descartada pelas grandes empresas que dominam o mercado. Famílias novas prosperam, até se transformarem em produtos genéricos, com preços baixos e, pior, lucros pequenos, – espinhos que incomodam o sistema capitalista oligopolizado. O Clorpirifós, um dos relativamente menos agressivos à saúde e mais eficientes biocidas organofosforados ainda sobrevive, apesar do desprezo e abandono dos seus criadores e cerrado tiroteio das coniventes agências reguladoras.

Nos últimos anos esse produto passou por uma reavaliação dentro do UNIVERSO FITOSSANITÁRIO. Para mitigar riscos à população foram excluídas de sua monografia as culturas de feijão, maçã e tomate. Meses depois, a ANVISA convencida que os relatos de intoxicações eram mais fruto da má aplicação por parte do lavrador e não do potencial de agressividade intrínseco do produto, retirou as culturas do castigo e absolveu o Clorpirifós, desde que as pulverizações não fossem via os perigosos aplicadores costais. Lagartas, pulgões, cochonilhas não se livraram deste algoz.

Todavia, um acidente ocorreu no final dos anos 90, em Porto Alegre/RS. UNIVERSO DOMISSANITÁRIO. Um Zé Bombinha foi contratado para aplicar desinfestante em postos de saúde de uma rede hospitalar. As formigas, os cupins e as baratas estavam irritando pacientes e funcionários. Azar geral, muitos funcionários se queixaram de desconforto e relataram diversos sintomas. Fato curioso é que os pacientes nada acusaram. Os laudos processuais não comprovam se realmente foi o Clorpirifós o biocida usado. (O leitor já teve dor de cabeça, fraqueza, mal estar? Se observou esses três sintomas recentemente, cuidado, pois pode não ser doença orgânica e sim estar sendo vitimado por um venenoso organofosforado, que desapercebidamente respirou em seu condomínio residencial). O Zé Bombinha deve ter usado um piretróide, pois a aplicação era em um hospital e o mais usual era lançar mão de uma família toxicologicamente menos agressiva. Mas, esqueceu que certos piretróides são mal cheirosos e podem despertar reações psico-somáticas, conhecidas por Síndrome da Exposição a Múltiplas Substâncias Químicas. Pode, também, ter usado qualquer outra coisa, inconfessável. Enfim, o Zé Bombinha não soube confirmar que produto utilizou e os investigadores recorreram a sofisticados cromatógrafos e analisaram as poeiras das mesas, dos rodapés, das caixas de papelão nos almoxarifados, até encontrar vestígio de pesticida. Em uma amostra apareceu o Clorpirifós, o qual foi imediatamente associado aos sintomas relatados (a bula do produto aponta também esses sintomas), e conclusão dos Sherlocks de plantão: o Clorpirifós foi o agente culposo. O Zé Bombinha fugiu, ninguém sabe dele. A Justiça apertou a ANVISA. Aproveitando a reavaliação em curso no universo fito a ANVISA baniu de imediato o produto apenas no universo domi. Em defesa dos gravíssimos prejuízos que a drástica atitude provocou em diversass empresas associadas, a AENDA, se manifestou dizendo que a reavaliação era de outro universo e que fosse respeitada a Lei do universo domi.

Mas, o rolo compressor já estava com velocidade e não foi possível pará-lo. Mas como, as leis não são DIFERENTES? São, mas a Justiça às vezes é INDIFERENTE. Foi pesticida, foi agrotóxico e, em especial esses que não dão bons lucros, pau neles! Banimento de imediato, sem fase de transição. Sobrou para as empresas, que engoliram os estoques e algumas deram sinais de falência financeira generalizada.

Pacata e paralelamente, no UNIVERSO ZOOSANITÁRIO, o Clorpirifós continua sendo um carrapaticida com custo-benefício mais apropriado aos recursos do homem rural. E, além do mais, animal que não apresenta sinais claros não pode ser considerado intoxicado. Lembre-se que os animais não contam os sintomas. Já ouviu algum jegue reclamar de dor de cabeça ou que ficou impotente? Naquele universo não há erro de diagnóstico induzido por sintomas.

Os cientistas não sabem unificar as leis, mas a JUSTIÇA e a ANVISA dão mostras que conseguiram criar um outro universo. Um, onde tudo pode, o universo do caos.

AENDA - Associação Brasileira dos Defensivos Genéricos