Nº 089

Jan-Fev/2006
DOSES MENORES NO BRASIL

Em minucioso levantamento o Eng. Agr. Luiz Carlos S. Ferreira Lima constata uma considerável redução de dose nos lançamentos dos defensivos agrícolas ao longo dos anos. Fonte: ANDEF, 2004

Dose média em ingrediente ativo - gramas/hectare
 
Década 60
Década 70
Década 80
Década 90
Herbicidas

2.097,00

1.315,00

371,00

242,00

Inseticidas

1.097,50

300,50

71,55

69,75

Fungicidas

1.393,50

533,50

414,50

185,45

Alguns dos produtos com reduções mais expressivas mencionados:

Herbicidas:
Chlorimuron ethyl (15 a 20 g/ha), Metsulfuron methyl (2 a 4 g/ha), Nicosulfuron (50 a 60 g/ha) e Imazethapyr (100 g/ha).
Inseticidas: Etofenprox (0,3 a 6 g/ha), Tebufenozide (3 g/ha), Acetamiprid (20 a 75 g/ha), Hexathiazox (30 g/ha), Cyfluthrin (6 a 40 g/ha), Deltamethrin (2,5 a 10 g/ha), Teflubenzuron (7 a 37 g/ha)
Fungicidas: Fenarimol (10 a 72 g/ha), Bromuconazole (15 a 180 g/ha), Propiconazole (62 a 187 g/ha), Azoxystrobin (80 a 160 g/ha).

Por outro lado, quando examinamos os dados de 2004 cedidos por pesquisadores do mercado, observamos uma realidade brasileira bem distinta desse quadro evolutivo.

O consumo brasileiro de todos os defensivos agrícolas, expressos em quantidade de ingrediente ativo, esteve em torno de 210 milhões de quilos naquele ano. Indo mais ao detalhe, construímos o quadro abaixo com números aproximativos dos produtos mais utilizados acima de 1 milhão de quilos

Herbicidas
milhões kg
Inseticidas
milhões kg
Fungicidas
milhões kg
Glifosato 77 Óleos min/veg 20 Mancozeb 5
2,4-D 13 Metamidofós 12 Tebuconazole 3
Atrazina 7 Enxofre 9 Cúpricos 3
Diuron 4 Endosulfan 7 Carbendazim 2
Trifluralina 4 Clorpirifós 3 Tiofanato 1
MSMA 3 Parathion 3    
Ametrina 3 Metomil 2    
TOTAL 111   56   14

Como se observa, esses campeões de uso no Brasil, perfazem 86% de todo o volume consumido em ingrediente ativo. Nenhum deles se enquadra na média apresentada para os lançamentos da década de 90. Neste quesito, os herbicidas e inseticidas usados no país estão mais para a década de 60, enquanto os fungicidas têm o perfil da década de 70.

Na verdade, talvez isso espelhe mais o fato de sermos um país em termos econômicos bem mais pobre do que desejamos. Aqui os produtos tendem a permanecer por mais tempo no mercado, pois à medida que eles ficam mais “velhos” ficam também mais baratos e a maioria dos agricultores podem usar essa ferramenta preservadora das colheitas. Se substituirmos mais aceleradamente os ingredientes ativos no mercado, encurtando a vida dos mesmos, teremos em contrapartida um aumento de custos agrícolas por conta desse insumo. Esse aumento de custo é relativamente bem absorvido nos países mais ricos, em razão das economias claramente mais poderosas e que permitem sistemas de compensação colocados à disposição de seus agricultores.

Mas atenção, agora que crescemos em exportações de produtos agrícolas, e uma bandeira de mais crescimento está desfraldada, passaremos a enfrentar movimentos de pressão dos países ricos para modernizarmos nossa grade de uso dos ingredientes ativos, com o único propósito de aumentar o custo de nossas lavouras e diminuir nossa competitividade em escala global. É uma das chamadas barreiras técnicas em voga na guerra mercadológica global. Sozinhos, nossa possibilidade será quase nenhuma de sucesso. Esse tipo de barreira é de uma concepção maquiavélica e expõe os povos a conflitos em torno dos alimentos, como se antes os dados científicos de limites aceitáveis dos resíduos fossem equivocados, e repentinamente se apresentam mais rigorosos coroando a si próprios com uma auréola de santa correção. Sua força começa sutil em fóruns técnicos, incorpora a manipulação e amplificação forçada de argumentos de saúde pública, até transformar-se numa daquelas verdades construídas e adotadas pelos meios de comunicação, e a partir daí avança vigorosamente, sendo de difícil reversão.

Os países emergentes e exportadores de bens agrícolas, como Índia, China, Argentina e Brasil devem formar uma frente de trabalho nos fóruns internacionais para contrabalançar essa nova ameaça, além de manter um projeto permanente de esclarecimento na mídia internacional.

Nada contra doses menores. Tudo a favor de produtos em boa concorrência.

AENDA - Associação Brasileira dos Defensivos Genéricos