Detendo
o segundo mercado mundial de produtos fitossanitários, mais
de quatro bilhões de dólares ao ano, o Brasil é
hoje um país de grande interesse para quase todas as indústrias
de pesticidas, que vislumbram possibilidades ainda maiores de expansão
deste mercado.
Entretanto a burocracia
para obter uma licença de comercialização é
tamanha que não é exagero afirmar ser mais fácil
importar uma amostra de plutônio do Iran, do que trazer para
o Brasil uma inofensiva amostra de pesticida com a finalidade de pesquisa
e registro para uso na agricultura (a maior parte já comercializados
com diferentes marcas ha vários anos em nosso país).
Esta restrição à pesquisa não existe em
nenhum lugar do mundo, apenas no Brasil, onde o pedido de importação
para qualquer pesticida (visando pesquisa e experimentação)
pode levar mais de um ano.
Essa barreira
à livre concorrência começa com uma solicitação
de Registro Especial Temporário – RET, apresentada em
três órgãos governamentais – MAPA, IBAMA
e ANVISA. Uma vez conseguida a permissão para importar as amostras,
permanece ainda toda a tramitação legal de despacho
e liberação das amostras, que passam por uma análise
tão crítica das autoridades que levanta dúvidas
sobre o real propósito de tanta burocracia.
Após vencer
a primeira grande barreira imposta pelo sistema brasileiro (autorização
para pesquisa), o incauto empreendedor vai ao laboratório e
ao campo para realizar as pesquisas e preparar um dossiê para
registro. No laboratório se faz profunda análise química
para conhecer a identidade do produto e alguns experimentos de caráter
toxicológico e ambiental. Essa fase pode perfeitamente ser
realizada em 1 ano, embora os poucos laboratórios brasileiros
capacitados ainda têm dificuldade para dar vazão a toda
a demanda do mercado na velocidade desejada. Os testes de eficácia
e quantificação de resíduos, em geral levam 2
anos, dependendo principalmente do sucesso em encontrar as pragas
visadas para testar a eficácia e quantificar o resíduo
do produto. O empresário que aqui chega para investir não
consegue entender para que servem esses testes de campo para produtos
genéricos, se a dose por alvo biológico e o limite máximo
de resíduo já estão estabelecidos em Monografias
Oficiais, de conhecimento público. Ora, em se tratando de produtos
genéricos, a dose e o limite de resíduo não podem
ser alterados, salvo por um estudo muito mais amplo. Ou seja, na concepção
do registro de um produto genérico por equivalência ao
produto referência (anteriormente registrado e que deu base
para os dados da Monografia), o registrante deve apresentar para cada
alvo-praga a mesma dose (ou faixa de dose) e o mesmo limite de resíduo
do produto já estabelecido no país. É papel para
guardar?
As pesquisas em laboratório e em campo também são
inspecionadas pelos ministérios responsáveis, mesmo
tratando-se de produto genérico, com centenas ou milhares de
quilos sendo utilizados no território nacional. Até
parece que o país é rico e pode se dar ao luxo desses
evidentes exageros!
Por fim, formatado
o dossiê, as empresas de agroquímicos genéricos
entram então com o pedido de registro por equivalência
(similaridade como genéricos) novamente nos três ministérios
(Agricultura, Saúde e Meio Ambiente). Essa avaliação
é outra via-sacra. Até hoje, após 10 meses de
avaliações, entre todos os pedidos protocolizados, apenas
três produtos obtiveram o registro por equivalência. Mas
as empresas estão impedidas de comercializá-los, pois
o governo aprovou apenas o produto em grau técnico e segurou
o pedido de registro de suas respectivas formulações.
Ou seja, as empresas de genéricos ganharam, mas não
levaram, graças à competente barreira interna montada
pelo governo, talvez, influenciado pelo lobby de grandes empresas
interessadas em manter o mercado só para elas.
Acreditamos que
a livre competição de mercado seria extremamente benéfica
para a agricultura brasileira. Os preços dos pesticidas ainda
exclusivos, embora com patentes vencidas, seriam drasticamente reduzidos,
refletindo diretamente no crescimento do agronegócio. Mas,
com essa barreira-burocrática, não dá.