Nº 096

Setembro/2006
A arte da Dominação
Parte III: Jogadas Tecnológicas

Nem só de medidas de força e ética discutíveis é feito o jogo do poderio econômico contra as empresas menores de produtos genéricos, como mostrado nos dois editoriais anteriores. As grandes empresas também investem em verdadeiro desenvolvimento tecnológico pós-patente, como parte das estratégias de continuidade da dominação.

NOVAS FÓRMULAS OU MISTURAS

Novos tipos inovadores de formulação podem diferenciar o produto e sobressair no mercado, mesmo tendo expirado a patente da molécula. São formulações que permitem absorção mais rápida (ou translocação melhor) do ingrediente ativo que as anteriores, por exemplo. Formulações que emprestam mais segurança ao usuário, como ocorreu com as micro-encapsuladas, é outro bom exemplo.
O desenvolvimento de mistura de ingredientes ativos também é uma forma interessante de ampliar o alcance da eficiência dos produtos e ao mesmo ganhar terreno mercadológico, segurando o avanço dos genéricos. Sempre que possível essas misturas envolvem um ingrediente ativo ainda sob patente, para impedir imitações em curto prazo.
É importante destacar, entretanto, que as empresas de genéricos podem trilhar o mesmo caminho, pois não são desenvolvimentos que exigem recursos tão amplos e, sempre podem ser feitos em parcerias com universidades e institutos de pesquisa.

NOVOS INGREDIENTES ATIVOS E ISÔMEROS ESPECÍFICOS

A introdução de novos ingredientes ativos é basilar na indústria de pesticidas. A busca por produtos mais efetivos e, mais recentemente, menos agressivos ao meio ambiente e ao homem, é o objetivo natural para oxigenar a própria linha de produtos e para competir com outros ingredientes ativos. Neste caso, a luta contra os genéricos, é alvo secundário.
Algumas moléculas possuem formas estruturais diferentes, curiosamente com a mesma composição e massa molecular. São os chamados isômeros, nada mais que a molécula remoldada espacialmente. Às vezes um dos isômeros é bem mais eficaz que o outro como Cida. Sintetizar a molécula só com o isômero que mais interessa não é tarefa fácil. Mas, o produto pode ser lançado com a mistura de isômeros e mais tarde (perto do vencimento da patente) apresenta-se à sociedade a versão com isomeria específica. A jogada é de mestre, visto que a nova versão é lançada já em escala de mercado desenvolvido e, portanto, bem mais viável do ponto de vista das operações fabris.

PROCESSOS DE FABRICAÇÃO

A queda do preço em decorrência da entrada de produtos genéricos no mercado por vezes é minimizada com o desenvolvimento de processos de fabricação mais econômicos. Essa tarefa realizada no período de exclusividade tem o intuito de manter a margem de lucro por mais algum tempo ou ter mais espaço para manobrar a diminuição do preço, dificultando a vida dos produtos genéricos.
Ao longo dos anos de exclusividade a grande empresa pode construir várias fábricas ao redor do mundo, determinadas pelos volumes ou logística. Quando um novo processo de fabricação mais econômico é desenvolvido, algumas dessas fábricas são fechadas para maximizar a rentabilidade. Essa continuidade de inversões em pesquisa é tarefa praticamente impossível para empresas de genéricos pequenas ou médias e, como resultado, não avançam nas vendas daquele ingrediente ativo e até se retraem.

TRANSGENIA ARTIFICIAL

A ciência da transferência artificial de material genético de uma espécie para outra chegou ao setor nos anos 90.
Primeiro, com a criação de uma semente de soja resistente ao herbicida Glifosato. Uma jogada para vender mais o Glifosato. O uso do herbicida foi às alturas, em detrimento de outros ingredientes ativos. Essa técnica aos poucos está sendo incorporada a outras culturas e vinculadas a outros herbicidas.
Segundo, no segmento dos inseticidas, a biotecnologia proporcionou algo mais espetacular ainda. Surgiram as plantas-inseticidas. Culturas, como o milho e o algodão, estão sendo modificadas em seus genes, de forma que incorporem a expressão química de toxinas do Bacillus thuringiensis (Bt), que têm a função lagarticida. Assim, agora temos o Milho Bt, o algodão Bt, etc., que já trazem nas folhas o ingrediente ativo lagarticida e, à princípio, não precisam mais da aplicação destes pesticidas. Elas próprias o são.
Constata-se que os pesticidas químicos estão perdendo significativas participações do mercado. A nova onda biotecnológica provocou paralelamente uma corrida mundial para aquisição de empresas regionais de sementes, e grande parte desse segmento hoje está na mão das empresas de pesticidas. A propriedade dos dois insumos, vitais para a agricultura, por parte de poucas empresas é o novo espectro da dominação que chama a atenção dos estudiosos mercadológicos.
Será que os fabricantes de genéricos poderão fabricar as plantas-pesticidas também? O tempo responde.

Os editoriais “A ARTE DA DOMINAÇÃO – Parte I, II e III” foram baseados no estudo da revista internacional AGROW, publicado em 2005 sob o título “Agrow’s complete guide to generic pesticides”, três volumes.
AENDA - Associação Brasileira dos Defensivos Genéricos