Nem
só de medidas de força e ética discutíveis
é feito o jogo do poderio econômico contra as empresas
menores de produtos genéricos, como mostrado nos dois editoriais
anteriores. As grandes empresas também investem em verdadeiro
desenvolvimento tecnológico pós-patente, como parte
das estratégias de continuidade da dominação.
NOVAS
FÓRMULAS OU MISTURAS
Novos tipos inovadores
de formulação podem diferenciar o produto e sobressair
no mercado, mesmo tendo expirado a patente da molécula. São
formulações que permitem absorção mais
rápida (ou translocação melhor) do ingrediente
ativo que as anteriores, por exemplo. Formulações que
emprestam mais segurança ao usuário, como ocorreu com
as micro-encapsuladas, é outro bom exemplo.
O desenvolvimento de mistura de ingredientes ativos também
é uma forma interessante de ampliar o alcance da eficiência
dos produtos e ao mesmo ganhar terreno mercadológico, segurando
o avanço dos genéricos. Sempre que possível essas
misturas envolvem um ingrediente ativo ainda sob patente, para impedir
imitações em curto prazo.
É importante destacar, entretanto, que as empresas de genéricos
podem trilhar o mesmo caminho, pois não são desenvolvimentos
que exigem recursos tão amplos e, sempre podem ser feitos em
parcerias com universidades e institutos de pesquisa.
NOVOS
INGREDIENTES ATIVOS E ISÔMEROS ESPECÍFICOS
A introdução de novos ingredientes ativos é basilar
na indústria de pesticidas. A busca por produtos mais efetivos
e, mais recentemente, menos agressivos ao meio ambiente e ao homem,
é o objetivo natural para oxigenar a própria linha de
produtos e para competir com outros ingredientes ativos. Neste caso,
a luta contra os genéricos, é alvo secundário.
Algumas moléculas possuem formas estruturais diferentes, curiosamente
com a mesma composição e massa molecular. São
os chamados isômeros, nada mais que a molécula remoldada
espacialmente. Às vezes um dos isômeros é bem
mais eficaz que o outro como Cida. Sintetizar a molécula só
com o isômero que mais interessa não é tarefa
fácil. Mas, o produto pode ser lançado com a mistura
de isômeros e mais tarde (perto do vencimento da patente) apresenta-se
à sociedade a versão com isomeria específica.
A jogada é de mestre, visto que a nova versão é
lançada já em escala de mercado desenvolvido e, portanto,
bem mais viável do ponto de vista das operações
fabris.
PROCESSOS
DE FABRICAÇÃO
A queda do preço em decorrência da entrada de produtos
genéricos no mercado por vezes é minimizada com o desenvolvimento
de processos de fabricação mais econômicos. Essa
tarefa realizada no período de exclusividade tem o intuito
de manter a margem de lucro por mais algum tempo ou ter mais espaço
para manobrar a diminuição do preço, dificultando
a vida dos produtos genéricos.
Ao longo dos anos de exclusividade a grande empresa pode construir
várias fábricas ao redor do mundo, determinadas pelos
volumes ou logística. Quando um novo processo de fabricação
mais econômico é desenvolvido, algumas dessas fábricas
são fechadas para maximizar a rentabilidade. Essa continuidade
de inversões em pesquisa é tarefa praticamente impossível
para empresas de genéricos pequenas ou médias e, como
resultado, não avançam nas vendas daquele ingrediente
ativo e até se retraem.
TRANSGENIA
ARTIFICIAL
A ciência da transferência artificial de material genético
de uma espécie para outra chegou ao setor nos anos 90.
Primeiro, com a criação de uma semente de soja resistente
ao herbicida Glifosato. Uma jogada para vender mais o Glifosato. O
uso do herbicida foi às alturas, em detrimento de outros ingredientes
ativos. Essa técnica aos poucos está sendo incorporada
a outras culturas e vinculadas a outros herbicidas.
Segundo, no segmento dos inseticidas, a biotecnologia proporcionou
algo mais espetacular ainda. Surgiram as plantas-inseticidas. Culturas,
como o milho e o algodão, estão sendo modificadas em
seus genes, de forma que incorporem a expressão química
de toxinas do Bacillus thuringiensis (Bt), que têm a função
lagarticida. Assim, agora temos o Milho Bt, o algodão Bt, etc.,
que já trazem nas folhas o ingrediente ativo lagarticida e,
à princípio, não precisam mais da aplicação
destes pesticidas. Elas próprias o são.
Constata-se que os pesticidas químicos estão perdendo
significativas participações do mercado. A nova onda
biotecnológica provocou paralelamente uma corrida mundial para
aquisição de empresas regionais de sementes, e grande
parte desse segmento hoje está na mão das empresas de
pesticidas. A propriedade dos dois insumos, vitais para a agricultura,
por parte de poucas empresas é o novo espectro da dominação
que chama a atenção dos estudiosos mercadológicos.
Será que os fabricantes de genéricos poderão
fabricar as plantas-pesticidas também? O tempo responde.
Os
editoriais “A ARTE DA DOMINAÇÃO –
Parte I, II e III” foram baseados no estudo da revista
internacional AGROW, publicado em 2005 sob o título “Agrow’s
complete guide to generic pesticides”, três volumes. |