Nº 099

Dezembro/2006
Equivalência - uma estratégia de competitividade

O câmbio brasileiro, o baixo preço internacional, as estiagens e a ferrugem asiática apunhalaram os plantadores de soja do oeste ao sul do país nas últimas duas safras. No campo a dor. Uma dor terrível e profunda que atravessou as sinapses da distribuição, deixando um gosto de fel e queimado, atingindo de cheio as fábricas de Defensivos grandes e pequenas. As fábricas chamaram a dor de inadimplência. Vendedores e cobradores, travestidos de bombeiros, tentam minimizar as conseqüências do golpe. Produtos são refaturados, preços caem, prazos se alongam, mas muito sangue escorre na forma de prejuízo financeiro e desemprego. O governo tenta ajudar, a burocracia em excesso afasta as partes litigantes.

Dessa agonia e tristeza surgiu ao menos um fato alentador no que diz respeito aos Defensivos Agrícolas. A sociedade conscientizou-se que o mercado brasileiro desse insumo é por demais concentrado e uma estratégia de Estado precisa ser desenvolvida e ações deflagradas.

Na área de política industrial pouco pode ser feito, enquanto a macroeconomia estiver atrelada aos rentistas em prejuízo dos empreendedores. A não ser que voltemos a impor impostos de importação como os das décadas de 60, 70 e 80. Aliás um arremedo disso foi feito com o GLIFOSATO via taxa anti-dumping de 35,8% em 2003 e vigorando até hoje, em favor das fábricas sintetizadoras instaladas no Brasil. Mas observem o nível da taxação para dar a falsa competitividade ao produto brasileiro. Será este o caminho de uma competitividade moderna? É claro que não, pois os compradores de alimentos sempre vão querer pagar um preço competitivo, o qual depende de custos competitivos de produção.  

Portanto,  vamos às ações possíveis. A vizinha Argentina tem preços mais baixos do que aqui. Por quê? Ano passado a indústria brasileira fez uma análise via Fundação Getúlio Vargas e consultoria KPMG concluindo que não eram os impostos brasileiros na cadeia produtiva, pois para os Defensivos Agrícolas o governo já havia feito uma desoneração ao longo dos anos e a somatória desses impostos, cerca de 12%, se equivalem aos da Argentina. O relatório não foi conclusivo, pois o enfoque solicitado havia sido a área dos impostos, sempre visto como o maior vilão do tal custo Brasil.

Afinal, qual é a causa? Fui até a aduana Argentina e anotei: em 2005, 39 empresas importaram GLIFOSATO (a MONSANTO, por exemplo, representou 10%), 37 empresas importaram CARBENDAZIM e 20 empresas importaram TEBUCONAZOLE. Atenção, para importar é obrigado ter registro de comercialização no SENASA, o MAPA de lá. Fui ao SENASA, só do GLIFOSATO eram 57 as empresas registrantes. Fiz uma pausa.

Voltei e averigüei o panorama do Brasil, no mesmo ano de 2005: 16 empresas com registro de GLIFOSATO (porém praticamente todas dependentes de fornecimento de um único fabricante); do CARBENDAZIM eram 6 empresas (agora em 2006 entrou mais um); e, do TEBUCONAZOLE apenas 3 empresas (agora em 2006 entrou mais um). Esses exemplos refletem o que existe de maior concorrência por aqui, ou seja, não sabemos o que é concorrência. No geral, o quadro é lastimável: 74% dos ingredientes ativos têm 1 só ofertante, 13% têm 2 ofertantes e apenas 13% são ofertados por 3 ou mais empresas.

É isso aí! O nome da solução é concorrência, concorrência de verdade. E, concorrência, prima direta da competitividade, passa pelo sistema de registro dos Defensivos Agrícolas. A Argentina implantou o registro por Equivalência em 1998 e acelerou o processo. Os portenhos passaram a contar com muitos ofertantes de um mesmo ingrediente ativo e é isso que sinaliza e empurra os preços para baixo, para o patamar da verdadeira competitividade. O Brasil introduziu esse regime em 2002 e, até agora, só 3 produtos tiveram registro de produto formulado, aquele que o agricultor pode comprar e usar.

Detalhe importante: a qualidade dos produtos argentinos nunca foi questionada pelos consumidores nacionais e estrangeiros de grãos e outros alimentos tratados com esses defensivos. O Brasil não pode dizer o mesmo, apesar de alardear que tem a mais restritiva lei de pesticidas do mundo. Foi do Brasil que a China rechaçou carga de soja no navio BUNGA SAGA 10 em 2004, com resíduos de CARBOXIN, fungicida usado na semente, que neste caso foi desviada indevidamente para grãos. Setor de registro poderoso, fiscalização desestruturada e sem recursos.

Mas, como ia dizendo, a notícia boa é que o governo está reformulando o Decreto 4074/2002 para dar velocidade ao processo de registro dos produtos genéricos. O tal do RET, uma permissão para fazer experimentos, que tem entupido os canais competentes de registro, levando meio ano cada pedido para ser aprovado, vai ter um rito sumário no caso de genéricos. Os testes de resíduos e de eficácia não serão exigidos para produtos formulados contendo produto técnico equivalente, se tiverem o mesmo tipo de formulação e se forem destinados aos mesmos usos de produtos anteriormente registrados.

Produto com qualidade e mercado competitivo é o que o método de registro por equivalência possibilita. Vou ficar cruzando os dedos para que desta vez não haja qualquer "pegadinha" no meio do palavrório, que impeça o país de crescer em competitividade neste setor.
AENDA - Associação Brasileira dos Defensivos Genéricos