China turva cenário no mercado de defensivos

Ainda que os estoques nos canais de distribuição tenham voltado aos patamares normais, as empresas de agroquímicos que atuam no Brasil não tiveram vida fácil em 2018. As vendas do segmento retornaram ao patamar de US$ 10 bilhões, é verdade, mas as margens deixaram a desejar e há poucos sinais de maior conforto em 2019.
O ano que está terminando foi marcado por problemas com o fornecimento de matérias-primas por parte de fabricantes da China e pela volatilidade cambial, o que normalmente tumultua a comercialização de produtos “dolarizados” como os defensivos. A greve dos caminhoneiros também travou o escoamento entre maio e junho, e as discussões sobre
restrições ao glifosato, herbicida mais usado no país e no mundo, completou a conjunção negativa.
O glifosato não foi proibido, não haverá influência eleitoral sobre o câmbio e dificilmente outra greve dos caminhoneiros será tão eficiente quanto a de maio, mas o fornecimento de matérias-primas chinesas continuará complicado. Daí porque, para muitos representantes do segmento, o horizonte continua nebuloso do ponto de vista de margens.
“Acho que 2019 será parecido com 2018. Uma coisa que deverá ser melhor é que o Brasil será mais estável sem eleições. Pelo menos, eu espero”, afirmou o britânico Jon Parr, presidente global da divisão de proteção de cultivos da Syngenta — multinacional de origem suíça controlada pela estatal ChemChina.
Este foi o primeiro ano de operações da Syngenta sob a batuta da nova controladora, e por isso foi de consolidação, inclusive no Brasil. “Nós entendemos melhor os chineses agora.
Isso pode ser uma vantagem”, disse Parr. Em 2017, a empresa faturou globalmente US$ 12,7 bilhões, 1% menos que em 2016. No primeiro semestre de 2018, foram US$ 7,3 bilhões, avanço de 5% ante o mesmo período do ano passado.
Para a Syngenta, estar sob o comando da ChemChina foi uma vantagem competitiva diante do endurecimento das fiscalizações ambientais no país asiático, que gerou alta de preços e interrupções no fornecimento de matérias-primas para indústria química no mundo todo.
“Vimos aumentos de preços de 20% a 100%. Mas, até agora, as interrupções para a Syngenta têm sido mínimas”, afirmou Parr. Apesar do aumento de custos e das dificuldades com fornecedores, ele acredita que a fiscalização ambiental na China é positiva. “O ambiente tem subsidiado a produção. Isso não é sustentável. O que está sendo feito eleva o padrão e
acho isso fantástico”.
Também foi um ano de consolidação para a DowDupont, e a venda da americana Monsanto para a Bayer foi concluída no segundo semestre, o que transformou a alemã na maior empresa de agroquímicos do planeta, à frente da Syngenta. E nesse cenário de consolidações, houve espaço para crescimento. A FMC Agricultural Solutions aproveitou a “janela”
aberta pela necessidade que os players maiores tiveram de vender ativos e pulou da oitava colocação no ranking mundial do segmento para a quinta posição.  O salto refletiu a aquisição, em novembro de 2017, de parte dos ativos da área de defensivos da DuPont. “Foi a primeira vez que vimos grandes desinvestimentos por questões regulatórias”, disse ao Valor Ronaldo Pereira, presidente da FMC na América Latina. Em 2017, as vendas da companhia totalizaram US$ 2,9 bilhões, alta de 13,4% ante 2016. Do total, US$ 863,6 milhões foram na América Latina, sobretudo no Brasil. “Esperamos um crescimento entre 8% e 8,5% para este ano”, afirmou ele.
A DuPont teve que se desfazer de parte de seus ativos na área de defensivos para ter sua fusão com a Dow aprovada pelos órgãos antitruste. A FMC ficou com parte do negócio (herbicidas para espécies de folhas largas e de inseticidas contra insetos mastigadores) e com a pesquisa e desenvolvimento da área de agroquímicos, incluindo 15 projetos de
moléculas em fase inicial de desenvolvimento. Também passaram para as mãos da FMC 13 plantas — uma no Brasil, em Barra Mansa (RJ).
“O Brasil passou a ser parte de uma rede global para a descoberta de novos ingredientes ativos. É diferente de um produto estar em desenvolvimento e vir para o Brasil para ser ajustado”, afirmou Pereira.
O investimento em pesquisa e desenvolvimento permanece como um dos maiores desafios do segmento de agroquímicos — a necessidade de aportes bilionários de foi um dos motivos que levaram à consolidação dos últimos anos. “Temos de gastar mais dólares para ter o mesmo retorno de inovação”, afirmou o executivo da Syngenta. Anualmente, a
empresa investe cerca de US$ 1,3 bilhão em pesquisa e desenvolvimento.
Mas, se as múltis preveem crescimento das vendas globais em 2019, é porque acreditam que a performance no Brasil, um de seus principais mercados, será positivo. Rodrigo Gutierrez, presidente no país da Adama, empresa de origem israelense também controlada pela ChemChina, está entre os que acreditam que as vendas no mercado brasileiro como
um todo voltaram aos US$ 10 bilhões em 2018, ante US$ 8,9 bilhões em 2017, e não descarta avanço no ano que vem.
O desafio é transformar o aumento das vendas em lucro, tarefa difícil neste ano que começou com estoques totais de US$ 3,3 bilhões e deverá terminar ainda com cerca de US$ 2,4 bilhões parados nas revendas, conforme estimativa do executivo da Adama. O alto volume dificultou o repasse de aumento de custos com matéria-prima e trouxe pressão adicional às margens da indústria. A tendência é de melhora do quadro, mas há muito trabalho pela frente.

Fonte Valor Econômico