CINCO
ANOS ANTES...
O processo movido em 2002 por duas empresas do parque brasileiro de
pesticidas culminou no início de 2003 em uma penalidade de
35,8% sobre qualquer quantidade de Glifosato e suas formas, importado
da China. Esse altíssimo percentual foi construído em
bases irreais em informações dos próprios peticionários.
O preço estabelecido como “Valor Normal” foi US$
5,60/kg para o Glifosato Ácido 100%. Mas não se levantou
os preços na China para saber se lá era maior que os
preços exportados para o Brasil. Foram tomados preços
na Índia, para forjar vergonhosamente esse preço maior.
Não houve qualquer nexo causal entre o preço praticado
pelas importações da China e os alegados prejuízos
da Indústria Nacional. Não foi realizada nenhuma auditoria
nas empresas denunciantes. As exportações da China para
o Brasil representavam apenas 6% do mercado. Foi um antidumping
preventivo para os peticionários e com marcante cunho político,
em vez de técnico.
Saiba o leitor que as importações de Glifosato durante
esses 5 anos foram quase o dobro do que a China exportava para o Brasil.
E, o principal exportador passou a ser a Monsanto dos Estados Unidos,
para suprir a incapacidade de sua fábrica brasileira versus
o consumo em ritmo de crescimento.
O construído Valor Normal de US$ 5,60/kg se mostrou estar muito
acima do valor real, conforme demonstrou a Aenda nos autos do processo.
Esse Valor Normal manteve-se em 43% acima do valor real de mercado,
incluindo aí o preço real praticado pela própria
Monsanto no mercado brasileiro. Aliás, existe um detalhe que
passou desapercebido: os preços das importações
realizadas pela Monsanto foram em média 30% abaixo do Valor
Normal e nem por isso o governo entendeu como dumping.
Durante os 5 anos
do alijamento oficial da China, o único país do mundo
com matérias-primas e capaz de fornecer Glifosato a preços
competitivos aos da maior produtora mundial, a Monsanto, o que se
viu foi uma avassaladora concentração da oferta do produto
no mercado brasileiro. Se em 2002 havia um duopólio, em 2008
restava um gigantesco monopólio da Monsanto.
NA
ATUALIDADE...
Mesmo diante disso, o governo brasileiro acatou um pedido de continuidade
do antidumping, ao invés de encerrá-lo em fevereiro,
como estava previsto. Os agricultores, o Ministério da Agricultura
e as empresas de genéricos independentes ofereceram resistência
e a penalidade caiu para 11,7% e depois para 2,9% em razão
de um absurdo erro de cálculo do órgão governamental
- DECOM - encarregado do processo. O erro foi delatado pela AENDA.
Após isso,
foi decretada uma revisão do antidumping, processo
que foi conduzido durante o decurso de 2008 e que deverá ter
sua decisão no próximo mês de fevereiro.
Mais uma vez forças ocultas rondam a Esplanada dos Ministérios,
é o que se deduz da leitura da Nota Técnica expedida
pelo DECOM (Ministério do Desenvolvimento) no último
mês de dezembro. As informações fornecidas pela
peticionaria Monsanto novamente estão induzindo o DECOM a conclusões
equivocadas.
Nessa retomada
do processo, o país escolhido para “padrão”
foi a Argentina, visto o DECOM insistir que a China não é
uma economia de mercado, apesar do Memorando Presidencial de 12.nov.2004
dizer o contrário. Se um Ato Oficial do Presidente que segue
os ditames da Constituição, a qual por sua vez dá
competência privativa ao Presidente da República para
celebrar Atos Internacionais, diz que a China é economia de
mercado, quem é no DECOM a por obstáculo? Tudo para
não ir à China verificar os preços daquele mercado?
Pois bem, voltando
às outras questões do processo antidumping,
agora a Monsanto apresenta novamente um valor FICTÍCIO de US$
7,27/kg, para o Glifosato Acido 100%, construído pela fábrica
da Monsanto na Argentina.
É interessante
observar que nos autos, repetidamente a Monsanto tenta descaracterizar
a Argentina como país “padrão” comparativo,
como determinou a Circular SECEX nº 5 de 11.fev.2008 e outras
subseqüentes. Por quê isso? Será que ela tem receio
que se descubra novamente o engodo a que tem sujeitado o DECOM e a
sociedade brasileira?
Pois, mais uma
vez desnudamos a farsa. Fomos ao sistema URUNET (está na Internet
para quem quiser, www.urunet.com.uy).
Lá está o preço importado pela Argentina do PMIDA
(substância intermediária que corresponde a mais de 80%
do custo do Glifosato Acido). A empresa Atanor importou a US$ 2,70/kg
e a Monsanto a US$ 2,27/kg, custo & frete.
No mesmo ano de 2007
a Atanor exportou para o Brasil 28.702.512 lts (Produto Formulado),
sendo o valor FOB (posto a bordo do transporte) de US$ 74.740.572,82,
ou seja, US$ 2,60/lt. Com base nisso, por engenharia reversa, calculamos
o preço do Glifosato Ácido 100%. Veja o quadro.
Cálculo
do Preço do Glifosato Ácido 100% - Atanor
|
| 1. Valor
FOB da exportação |
US$ 74.740.572,82 |
| 2. Custo
da conversão (a) |
US$ 24.397.135,20 |
| 3. Custo
do Glifosato Ácido 100% (1–2) |
US$ 50.343.437,62 |
| 4. Quantidade
de Glifosato Ácido 100% (28.702.512 lts x 0,36) (b) |
10.332.904,32
kgs |
| Preço
FOB Glifosato Acido 100% (3:4) |
US$
4,87/kg |
(a) O
custo da conversão do Glifosato Formulado para “Glifosato
Acido 100%” é calculado multiplicando a quantidade
(28.702.512 lts) pelo fator US$ 0,85/lt. Esse fator foi validado
pelo DECOM.
(b) Cada litro de Glifosato Formulado contém 360 gramas
de Glifosato Acido 100%
|
Ainda segundo
a URUNET, o preço do Glifosato Acido 100% importado da China
pela Argentina, em 2007, foi de US$ 5,08/kg custo & frete e US$
5,77 custo & frete internado. Fato que por si só valida
o preço de US$ 4,87/kg calculado acima no quadro, a partir
do material PMIDA (ácido iminodiacético de N-fosfonometil)
importado da China.
Atenção
caro leitor, dado importante: o preço da Monsanto no mercado
brasileiro em 2007 foi de US$ 5,45/kg para o Glifosato Acido 100%.
Primeira constatação:
-- Se o preço do Glifosato Acido 100% para comparação
da ocorrência de dumping (da China) é o da Argentina
comparado com o praticado no Brasil, temos uma negação
do dumping. Argentina = US$ 5,77/kg e Brasil = US$ 5,45/kg,
logo, não houve sub-cotação da Argentina (China)
para o Brasil e portanto não houve dumping.
Segunda constatação:
-- O preço do Glifosato Acido 100% de US$ 7,27/kg apresentado
pela Monsanto é por demais “salgado” quando comparado
ao preço de US$ real importado de US$ 5,77/kg, e mais ainda
quando confrontado com o preço da Atanor de US$ 4,87/kg. É
um preço irreal, salvo se a fábrica da Monsanto na Argentina
for muito, mas muito, ineficiente. É um preço para induzir
o DECOM a afirmar que a Argentina (representando a China no processo)
estaria vendendo mais barato para o Brasil.
A manipulação
de dados tem sido tão flagrante e o abuso do poder econômico
no mercado tão opressivo que a Nortox, a outra peticionaria
de 2002, negou agora apoiar qualquer iniciativa de continuidade da
penalidade.
O DECOM precisa
ficar de olho para não sair desmoralizado desse episódio,
e, os Ministros que compõem a CAMEX devem abrir os dois olhos,
pois Mr. Lobby está solto na Esplanada.
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