S/N
Novembro/2010

MISTURA OU NÃO MISTURA ?

No linguajar fitossanitário existem dois tipos de mistura. A mistura em tanque, que é a adição de dois ou mais produtos comerciais quando do preparo da calda no tanque do pulverizador antes da aplicação. E, a mistura pronta, que é um produto comercial já contendo a mistura de ingredientes ativos.

Para ilustrar o conteúdo deste texto recorremos aos resultados sumarizados dos ensaios cooperativos para o controle da ferrugem asiática da soja (Phakopsora pachyrhizi), realizados na safra 2009/10, publicados na Circular Técnica nš 80 da EMBRAPA SOJA.

Após discorrer sobre a perda da eficiência de fungicidas do grupo dos triazóis, aplicados isoladamente, a partir da safra de 2007/08 na Região Centro-Oeste e nas demais regiões a partir da safra 2008/09, a Comissão de Fitopatologia da Reunião de Pesquisa da Região Central do Brasil, passou a indicar somente a utilização de misturas comerciais de triazóis com estrobilurinas. Todos os resultados podem ser vistos no site www.cnpso.embrapa.br, buscando em publicações. Destacamos os seguintes para embasar nosso raciocínio.

a) Trifloxistrobina + Tebuconazol (50 + 100 gramas de ing.ativo por hectare) + Aureo (0,5 l/ha)

b) Azoxistrobina + Tetraconazol (50 + 50 g i.a. / ha) + Nimbus (0,6 l/ha)

c) Piraclostrobina + Epoxiconazol (66,5 + 25 g i.a. / ha) + Assist (0,5 l/ha)

d) Picoxistrobina + Ciproconazol (60 + 24 g de i. a. / ha) + Nimbus (0,5 l/ha)

Logo à primeira olhada ressalta o fato da adição de adjuvantes a essas misturas comerciais, obviamente uma operação de mistura em tanque. Aliás, é importante citar que o trabalho não é só da EMBRAPA; é fruto de um esforço conjunto de diversas instituições de pesquisa, conforme devidamente mencionado na Circular Técnica.

Vamos agora repassar alguns aspectos comerciais destes produtos selecionados e fazer as contas para uso de mistura em tanque para 1 hectare:

a) A mistura Trifloxistrobina 50 + Tebuconazol 100
é registrada como mistura pronta sob a marca Nativo.

● A Trifloxistrobina é exclusiva da BAYER e é encontrada separada sob a marca Flint 500 WG.
● Já o Tebuconazol é um produto com registro de diversas empresas: Alterne e Orius (MILENIA), Array 200 EC e Egan (CONSAGRO), Constant, Elite, Folicur 200 EC, Folicur EC, Folicur WP, Raxil FS e Tríade (BAYER), Icarus, Odin e Solist (ROTAM), Konazol e Rival 200 EC(NUFARM), Riza (CHEMINOVA), Systemic e Tebuhelm (HELM), Tebuco, Tebuconazole Nortox e Tebuconazole Nortox 200 EC (NORTOX), Tebufort (DVA), Tebuzol 200 EC (UPL), Tebuconazole Terrago (TERRAGRO) e Tacora 250 EW (CROSS LINK).
● Para atingir a mesma quantidade de ingrediente ativo por hectare indicado na pesquisa para a mistura pronta, o agricultor interessado em mistura em tanque deve usar Flint 500 WG na dose de 100 g/ha (regra de três: se Flint tem 500 gramas em cada 1000ml, 50 gramas serão obtidas em “x” gramas = 100 g) e adicionar à calda um produto à base de Tebuconazol na quantidade que chegue a 100 g de i.a./hectare (Exemplo: se o produto tem a concentração de 200 gramas/litro basta adicionar ½ litro para cada volume de calda a gastar por hectare; se, em segundo exemplo, o produto contiver 430 g/litro de Tebuconazole, adicione 232,5 ml na calda.

b) A mistura Azoxistrobina 50 + Tetraconazol 50 é um produto ainda não registrado como mistura pronta até a data deste artigo, portanto o agricultor só pode se valer da mistura em tanque.
● O ingrediente ativo Azoxistrobina, por ora, é exclusivo da SYNGENTA, sob as marcas Amistar (500 g/kg) e Vantigo (500 g/kg).
● Use o Amistar ou o Vantigo na dosagem de 100 gramas em uma calda para um hectare. Acrescente Tetraconazol. Veja a concentração do produto isolado e faça a regra de três. Exemplo, Eminent 125 EW (ARYSTA), deve ser usado na calda para um hectare exatamente 400 ml (1000/x = 125/50). As outras opções de Tetraconazol são: Domark 100 EC (SIPCAM ISAGRO), Emerald 125 (FMC) e Emerald 230 ME (Isagro).

c) A mistura Piraclostrobina 66,5 + Epoxiconazol 25 está registrada sob a marca Opera (BASF) como mistura pronta.
● A estrobilurina Piraclostrobina em separado está registrada com a marca Comet (250 g/l), também da BASF.
● Enquanto o triazol Epoxiconazol tem os seguintes registros isolados Biver, Rubric e Warrior (CHEMINOVA), Keep 125 SC e Soprano 125 SC (MILENIA), Opus SC, Praise, Régio, Tango Cash e Virtue (BASF).
● Para atingir as quantidades por hectare da mistura pronta recomendada, o agricultor deve usar 266 ml de Comet (1000/x = 250/66,5) em uma calda suficiente para um hectare e adicionar a quantidade resultante a partir da concentração do produto com Epoxiconazol (Ex. 1000/x = 125/25, usar 200 ml).

d) A mistura Picoxistrobina 60 + Ciproconazol 24 está registrada como mistura pronta sob a marca Aproach Prima (Du Pont).
● Na condição de ingrediente ativo isolado, o Picoxistrobina tem registrado o produto Oranis (250 g/l) da Du Pont.
● E, o ingrediente ativo Ciproconazol está registrado como produto separado com a marca Alto 100 (100 g/l_Syngenta).
● Portanto, neste caso, a opção para mistura em tanque fica restrita a Oranis com a dosagem de 240 ml em calda para um hectare, mais o Alto 100 na dosagem de 240 ml (1000/x = 100/24) por calda-hectare.

Nunca é demais relembrar que a mistura em tanque não tem necessidade de registro, sendo unicamente uma prática agrícola de responsabilidade clara do agricultor. Em 1995, sob pressão de ambientalistas, o Ministério da Agricultura editou a Portaria 67 que obrigava a informar no rótulo/bula as marcas comerciais dos produtos a misturar, com a esdrúxula exigência de apresentar permissão do detentor de cada marca citada. Em 2002, convencido do abuso de poder econômico que essa exigência trazia em si mesma, e, mais, que a mistura em tanque não está capitulada na Lei, o MAPA a revogou através da Instrução Normativa 46.

Registrar essa memória é importante neste momento, porque nas duas últimas safras ressurgiu uma onda de boatos contra a aplicação da mistura em tanque. Desta feita, a maledicência coincidiu justamente com o nascimento das misturas prontas recém-registradas para ferrugem da soja e que notadamente têm quase sempre um dos ingredientes ativos ainda sob patente. Como o mercado é uma praça de guerra entre vendedores, vale tudo para abrir espaço, inclusive excluir ou tentar dificultar o uso de produtos genéricos.

Ao técnico responsável pelo controle fitossanitário da propriedade que não queira recomendar a mistura em tanque na receita obrigatória, ainda atordoado por essas desinformações, recomendamos a emissão de duas receitas, uma para cada produto.

Ao agricultor, insistimos para que pesquise os melhores preços, melhor dizendo... os menores, dos produtos em separado e pratique sua mistura em tanque. Economiza combustível, desgaste do maquinário e tempo de operação. Expõe menos o aplicador (não deixe de disponibilizar os equipamentos de proteção) e resulta em menor amassamento da lavoura. Lembre-se que na realidade mercadológica existem reais diferenças de preço, em conseqüência de vendas por quantidade, estoques parados ou estratégias a favor de determinados produtos na listagem de uma empresa.

Eng. Agr. Tulio Teixeira de Oliveira – Diretor Executivo da AENDA
www.aenda.org.br / aenda@aenda.org.br