S/N
Setembro/2008
AUMENTO DE PREÇOS CHEGA AOS DEFENSIVOS AGRÍCOLAS

Após a perversa alta de preços dos fertilizantes para os custos da agricultura brasileira, chega a hora do ajuste nos defensivos agrícolas, que há um bom tempo mantém o mesmo valor no mercado internacional e em queda no Brasil face à valorização do Real. A conjuntura sócio-econômica mundial vem se modificando, o consumo mundial de alimentos vem aumentando, acompanhado pela crescente procura por biocombustíveis, situação que, consequentemente, afeta o equilíbrio entre oferta e demanda de agroquímicos e coloca em xeque o abastecimento do mercado pelos diversos tipos de insumos agrícolas.

A China, grande exportadora de defensivos genéricos a preços baixos, está em ebulição nessa área. Olhando atentamente essa questão, observa-se que o país está em pleno processo de reestruturação das indústrias de defensivos agrícolas. Agora, existem leis que regulam as falências e a propriedade privada. Este ano entrou em vigor a lei de contratos de trabalho. O imposto de renda das empresas está progressivamente sendo equalizado em 25%, deixando o patamar dos 15%. A devolução do imposto VAT diminuiu sensivelmente. Fábricas são fechadas e reconstruídas em conformidade com as novas exigências ambientais. Nesse processo, inclusive, determinados inseticidas deixaram de ser produzidos, entre os quais o Metamidofós e o Paration Metilíco, ambos de largo uso no Brasil, sendo que a apenas o Metamidofós é produzido aqui pela Fersol e Bayer; por ora o Paration Metilíco fica sem fonte fornecedora.

Outro ponto importante a ser analisado é a preocupação da China com o abastecimento interno. Desde março, os chineses aplicaram alíquota de exportação de 120% para os fósforos amarelo e branco, importantes matérias-primas do setor. O país também enfrenta inflação alta há dois anos e percebeu que já não é preciso vender seus produtos tão baratos para continuar competindo no mercado mundial.

A demanda por biocombustíveis também está aquecida, e tudo indica que ela só tende a aumentar com o barril do petróleo superior a US$ 100. Essa tendência também influencia os preços dos defensivos agrícolas, na medida em que matérias-primas derivadas do óleo negro e utilizadas nas sínteses dos ingredientes ativos passam a custar mais e pressionam os preços dos produtos finais; afora o aumento dos fretes internacionais. À jusante, o uso do milho pela América do Norte (USA) para biocombustível elevou o custo desse fundamental grão, arrastando os demais.

Somando esses fatores, estimamos que os defensivos devam nesse 2º semestre ter uma alta acima de 10% nos preços em Reais; sendo que alguns defensivos terão aumentos bem maiores, como os produtos à base de Atrazina, Carbendazim e Glifosato. Para o próximo ano o peso do aumento geral deverá ser mais expressivo ainda. Em verdade, a agricultura empresarial já está absorvendo esses aumentos, pois os descontos sobre os “preços de lista” já diminuíram.

Considerando que mais de um terço do PIB brasileiro provém do agronegócio, é indispensável que o governo inicie um processo estratégico de defesa da indústria local desse insumo. Hoje, cerca de 60% dos defensivos agrícolas consumidos no país são importados, quando em passado recente 80% eram fabricados aqui. O motivo é claro: falta de estímulos governamentais e de planejamento estratégico para o setor.

Ainda não é vantajoso investir no Brasil para produzir fitossanitários. Enquanto uma empresa nacional de produtos químicos sofre a incidência de impostos e taxas da ordem de 45%, sua congênere chinesa compete com uma carga bem menor. A química fina permanece importadora e não investe na especialização e oferta do leque das matérias-primas, apesar de todo o avanço tecnológico de nosso país. Erros primários assim só projetam um futuro pequeno e dependente.

Urge uma política industrial para o setor, concreta, de forma a reduzir a dependência externa e sua mudança repentina de humor. Caso contrário, o filme chocante que estamos assistindo com os fertilizantes terá sua versão nos defensivos agrícolas, ou agrotóxicos, ou pesticidas ou praguicidas, como queiram.

Eng. Agr. Tulio Teixeira de Oliveira- Diretor Executivo da AENDA - aenda@aenda.org.br