S/N
Julho/2011

QUANDO 15% É MAIS QUE 85%

A revista AGROANALYSIS publicou recentemente um artigo na seção Especial Andef com uma visão resumida da evolução do mercado brasileiro de defensivos agrícolas nos últimos anos. Bom artigo, compacto e bem informativo. Traz ainda uma tabela com números do SINDAG comparando produtos genéricos versus produtos especialidades, e que reproduzimos aqui em parte, para explorar o tema um pouco mais.

Quantidade e valor de venda no Brasil
2008
2009
2010
Genérico
Especial
Genérico
Especial
Genérico
Especial

Ingrediente ativo
(em 1.000 ton)

268,1
44,4
285,39
50,42
278,93
63,65

Receita
(em US$ bilhões)

3,85
3,27
3,21
3,41
3,10
4,20

O articulista da Andef esclarece devidamente que o agricultor está neste momento histórico “em condições de melhorar o padrão tecnológico” de sua lavoura, suportado pelos preços alcançados por seu produto agrícola. A tabela mostra isso claramente, as especialidades cresceram em volume 43,3% de 2008 a 2010 e 28,4% em valor. Enquanto isso os genéricos patinaram, aumentando em quantidade apenas 1,04% e caindo em valor cerca de 20%, no mesmo período.

Fatores adicionais devem explicar esse fenômeno. Dinheiro no bolso é o principal, é certo. Mas, devo observar que o grande avanço anterior dos genéricos estreitou as margens das empresas com expressiva dedicação á pesquisa de novas moléculas e diante deste cenário de alta das safras agrícolas era hora de incentivar a troca de genéricos por novos ingredientes ativos. As novas moléculas estão rareando e a oportunidade não podia ser perdida.
É o que está ocorrendo. Maciça promoção no campo e nada de defender os maiores genéricos junto às agências reguladoras. Neste contexto, recordo que a Cihexatina, o maior acaricida da citricultura, já está no fim, por conta da reavaliação da ANVISA. O mesmo ocorre com o inseticida Endossulfan. O fumigante Brometo de metila já quase não existe. No início dos anos 2000 vimos a queda do Benomil (fungicida), Dicofol (acaricida) e Monocrotofos (inseticida). O inseticida Parathion foi estigmatizado até pela agência da China e ficou pelo meio do caminho.

Por falar em China, certamente reside aí a grande queda do valor dos genéricos, pois se a quantidade não caiu de 2008 a 2010, como explicar a somatória 20% menor no valor de 2010? A adoção do regime de registro pela equivalência no Brasil foi efetivamente iniciada em 2005 e em 30abr2011 já contávamos com 160 Produtos Técnicos Equivalentes (52 ingredientes ativos) registrados e cerca de 187 produtos formulados com base nesses PTEquivalentes. Isso já foi suficiente para soprar as brasas da concorrência e os dois últimos anos mostram o reflexo das labaredas incandescentes derretendo os preços.

O Glifosato representa 30% ou mais de toda a quantidade de ingredientes ativos consumidos no país, e os preços vindos da China chegam ao agricultor pela ponte da Equivalência, antes inexistente. Só este produto explica os números da tabela, mas é fato que a onda da concorrência aumentada em outros produtos registrados pela Equivalência determinou o fenômeno descrito na tabela, no caso dos genéricos.

Todavia, o agricultor deve ficar esperto com esse avanço das especialidades. Em tudo deve haver um ponto de equilíbrio. Tente enxergar na tabela números que não aparecem, mas que estão lá. Vou ajudar.

Em 2010, 63.650 toneladas de especialidades foram vendidas por US$ 4,20 bilhões. Isso significa que uma especialidade custou US$ 65,90 /kg. Nesse mesmo ano um genérico custou US$ 11,11/kg.

Em 2008, uma especialidade custou U$$ 73,60/kg e um genérico US$ 14,10/kg.

A média geral, considerando os dois grupos, resultou em US$ 21,30/kg, em 2010. Em 2008 foi US$ 22,40/kg.

É possível inferir que, aparentemente, o derretimento de preços dos genéricos está puxando para baixo também os preços das especialidades. Mas, com o banimento dos grandes genéricos, o agricultor não poderá mais contar com isso. E, as especialidades poderão impor o preço máximo que a agricultura suportar.

A conta por hectare vai depender da dose de cada produto, mas grosso modo, se considerarmos 65 milhões de hectares da nossa agricultura (na verdade é mais, pois existem culturas com mais de uma safra por ano), em 2010, teríamos usado 5,2 kg/ha. Ou seja, se usasse só especialidades o agricultor teria gasto 5,2 x 65,9 = US$ 332,6/ha. Com genéricos, US$ 57,7/ha.

Alguns entendem que devemos agregar a área das pastagens, tanto assim que os números quantitativos de venda de produtos incluem as vendas para pastagens também. Então, para atender a estes, devemos considerar a área agrícola Brasil na dimensão de 65 milhões de hectares (anuais + perenes) somados aos 218 milhões de hectares das pastagens, ou seja, 283 milhões de hectares usados pela agropecuária. Neste caso, o índice de uso cai para 1,2 kg/ha.

Por fim, para que o título do artigo faça sentido é preciso aguçar mais ainda a vista e vislumbrar que 278,93 toneladas de genéricos usados em 2010 representam 85% do total; e, as especialidades são 15%. Porém, todavia, contudo, em termos de valor, as especialidades representam 58% e os genéricos apenas 42%. Daí, elementar dizer que 15% (quantidade de especialidades) vale mais que 85% (quantidade de genéricos).

Eng. Agr. Tulio Teixeira de Oliveira – Diretor Executivo da AENDA
www.aenda.org.br / aenda@aenda.org.br