Em entrevista exclusiva, André Zacarias, Presidente do Conselho-Diretor da entidade, faz um balanço dos 40 anos da AENDA e analisa os principais desafios do setor para os próximos anos
Em 2026, a Associação Nacional das Empresas de Produtos Fitossanitários (AENDA) celebra 40 anos de trajetória. Desde sua fundação em 1986, a associação tem sido a voz técnica e política por trás de conquistas estruturantes, como a implementação do registro por equivalência. Esse marco histórico não apenas democratizou o acesso a insumos essenciais, como transformou o perfil do mercado nacional, garantindo que o agricultor brasileiro pudesse contar com ferramentas mais acessíveis e competitivas para proteger sua produção.
Atualmente, com mais de 70 associados, a AENDA expandiu seu escopo para abraçar a integração de defensivos químicos e bioinsumos na agricultura. Em um cenário onde o mercado de proteção de plantas movimenta mais de US$18 bilhões e o uso de biológicos cresce quatro vezes acima da média global, a entidade atua como interlocutora estratégica junto a órgãos como o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). O objetivo é claro: que a inovação tecnológica caminhe lado a lado com a segurança jurídica e a sustentabilidade.
Nesta entrevista, André Zacarias, Presidente do Conselho-Diretor da AENDA, faz um balanço dessa trajetória de quatro décadas e analisa os desafios imediatos que cercam o setor. Entre os temas em destaque, Zacarias discute os impactos da Reforma Tributária sobre o custo de produção, a recente sanção da Lei de Bioinsumos e as tendências de inovação que devem moldar a agricultura brasileira nos próximos cinco anos.
A AENDA completa 40 anos de trajetória em 2026. Como você avalia o papel da entidade para garantir a competitividade do agricultor brasileiro por meio dos produtos fitossanitários?
André Zacarias – Criada em 1986, a AENDA desempenhou desde seus primeiros anos um papel fundamental não apenas para associados, mas também para o público em geral sobre as mudanças trazidas pela legislação e pela criação dos órgãos regulatórios. A AENDA ao longo de quatro décadas, foi protagonista em conquistas estruturantes para o setor. A AENDA foi a principal entidade atuante na origem do registro de defensivos por equivalência, e esse trabalho culminou na aprovação do Decreto 4074/2002, cuja implementação mudou completamente o panorama do mercado de defensivos agrícolas no Brasil.
Hoje, com 70 associados e sede em São Paulo, a AENDA é fonte de informação em tempo real e porta-voz da classe junto a órgãos de governo, atuando com rigor no cumprimento de regras de governança corporativa e compliance, oferecendo respaldo técnico e jurídico em questões que vão desde registros de produtos até tributos e boas práticas no campo. Esse papel é decisivo para que o agricultor brasileiro tenha acesso a produtos mais acessíveis, seguros e eficazes.
Qual o tamanho do mercado de defensivos no Brasil e sua importância no desenvolvimento sustentável da agricultura brasileira?
André Zacarias – O mercado brasileiro de defensivos ou sob uma forma conceitual mais moderna, produtos para proteção de plantas (PPPs), é um dos maiores do mundo. O valor de mercado, medido pelo preço pago pelo consumidor final, atingiu US$18 bilhões em 2024. Em termos de área, o uso de defensivos agrícolas encerrou o ciclo de 2025 com alta de 6,1% em relação ao ano anterior, totalizando 2,6 bilhões de hectares tratados, segundo levantamento da Kynetec Brasil encomendado pelo Sindiveg.
A importância dos PPPs vai muito além dos números. Os produtos auxiliam em até 40% no ganho de produtividade no campo, representando 40% de toda a comida que poderia ser produzida no mundo, em um momento em que todos falam sobre segurança alimentar. Um agronegócio competitivo e produtivo é, por definição, um agronegócio que alimenta o país e abastece o mundo, o que faz dos produtos para proteção de plantas (PPPs), um pilar do desenvolvimento sustentável brasileiro.
Como a associação está trabalhando para integrar em suas ações os defensivos químicos e os bioinsumos e garantir que a inovação em bioinsumos siga o mesmo rigor de segurança e eficácia dos defensivos tradicionais?
André Zacarias – A AENDA atua fortemente na regulamentação de bioinsumos prevista pela recém-aprovada Lei de Bioinsumos, assim como na regulamentação de químicos estabelecida pela Lei de Agrotóxicos de 2023. A entidade entende que defensivos
químicos e bioinsumos não são concorrentes, mas complementares na proteção integrada das lavouras. Na safra 2023/2024, o mercado de bioinsumos apresentou crescimento de 15%, com vendas somando R$5 bilhões. Nos últimos quatro anos, esse mercado teve aumento médio anual de 21%, quatro vezes superior à média global. A AENDA acompanha esse crescimento com a mesma exigência regulatória que orienta os defensivos químicos — eficácia comprovada, segurança avaliada e registro adequado — pois somente com esse rigor é possível garantir proteção real ao agricultor e ao consumidor.
Como a AENDA tem atuado junto aos órgãos regulatórios para contribuir com a regulamentação das leis de Agrotóxicos e Bioinsumos?
André Zacarias – A atuação regulatória é um dos pilares históricos da AENDA. Ao longo do último ano, a AENDA e outras mais de 50 entidades do setor trabalharam intensamente em uma proposta consensual para o Projeto de Lei de Bioinsumos. Em dezembro de 2025, a Lei Nº 15.070/2024 foi sancionada pelo presidente da República e está em vigor no Brasil.
Além disso, a AENDA participa ativamente junto a MAPA, ANVISA, IBAMA, IPA, CREA, APROSOJA, ABRAPA e órgãos de defesa agropecuária nos estados, nos processos de registro e reavaliação de ingredientes ativos, e tem representação nos grupos técnicos que moldam a regulamentação federal. A entidade também trabalha com rastreabilidade de produtos, um ponto essencial para combater o mercado ilegal e garantir que apenas produtos seguros e registrados cheguem ao campo.
Com a nova Reforma Tributária, quais as principais preocupações da AENDA quanto ao impacto no custo de produção de defensivos e como a entidade está trabalhando esta questão com seus associados?
André Zacarias – A Reforma Tributária traz desafios concretos para o setor. A mudança estrutural mais significativa para o segmento de insumos é a extinção dos regimes fiscais históricos que sustentaram a competitividade do agronegócio. Insumos essenciais como fertilizantes, defensivos, sementes e rações gozavam de isenção ou alíquota zero de PIS/COFINS e redução do ICMS, benefícios que serão extintos e substituídos por créditos e alíquotas reduzidas.
Defensivos e fertilizantes, que hoje têm alíquota zero de PIS/Cofins, passarão a ser tributados. Mesmo com o redutor de 60% sobre a alíquota padrão de IBS/CBS, a carga efetiva sobre insumos deve ficar entre 10% e 11%. A AENDA acompanha de perto esse processo, defendendo junto ao Legislativo e ao Executivo que as especificidades do setor sejam respeitadas, que os insumos fitossanitários permaneçam na lista de produtos beneficiados com alíquota reduzida e que o período de transição (2026–2032) seja gerido de forma a não comprometer a competitividade do agricultor brasileiro.
Para os próximos 5 anos, quais seriam os principais avanços esperados em inovação técnica de defensivos químicos e biológicos? No Brasil e em outros países.
André Zacarias – A inovação no setor caminha em duas frentes paralelas e complementares. No campo dos defensivos químicos, a tendência mundial é o desenvolvimento de moléculas cada vez mais seletivas, com menor dose por hectare e menor impacto ambiental. No Brasil, a aprovação de novos ingredientes ativos e a expansão dos produtos genéricos continuam ampliando o acesso do agricultor a tecnologias avançadas.
No segmento biológico, a projeção de crescimento do mercado de bioinsumos é quatro vezes superior à média global, impulsionada pela busca por soluções de manejo integrado de pragas e pela demanda de mercados internacionais por rastreabilidade e sustentabilidade. Globalmente, espera-se avanços significativos em RNA de interferência (RNAi), biofungicidas de nova geração, e tecnologias de precisão que combinam sensoriamento remoto com aplicação localizada de defensivos, reduzindo desperdícios e aumentando eficácia.
E o que os associados podem esperar para os próximos anos da AENDA?
André Zacarias – Os associados podem esperar uma AENDA cada vez mais estratégica e presente. Com 40 anos de história, a entidade entra em sua próxima fase fortalecida pela conquista da Lei de Bioinsumos, pela ampliação do escopo para representar tanto empresas de produtos pós-patente quanto as de Pesquisa e Desenvolvimento. A AENDA atua como ponto focal onde os fabricantes de defensivos químicos e biológicos se reúnem para debater diferentes temas, coordenando atividades como cursos técnicos, reuniões com grupos técnicos e relatórios mensais com informações do setor.
Para os próximos anos, os associados podem esperar atuação ainda mais intensa na regulamentação da reforma tributária, na implementação das normas da Lei de Agrotóxicos e da Lei de Bioinsumos e no fortalecimento das boas práticas agrícolas como diferencial competitivo do produto brasileiro no mercado global.