Estudo aponta impactos sobre polinizadores, inimigos naturais e besouros coprófagos
As mudanças climáticas causadas por atividades humanas ameaçam insetos responsáveis por polinização, controle biológico de pragas e ciclagem de nutrientes. O aquecimento altera a distribuição das espécies, desorganiza relações entre plantas, herbívoros e inimigos naturais e pode reduzir a eficiência de serviços ecossistêmicos usados pela agricultura. As conclusões constam em trabalho realizado em conjunto por pesquisadores de diversos países, que também destaca efeitos associados à perda de hábitat, às invasões biológicas e às mudanças no uso da terra.
Os cientistas analisaram impactos sobre polinizadores, predadores, parasitoides e besouros coprófagos. O estudo relaciona as alterações climáticas a mudanças fisiológicas, comportamentais e fenológicas. Essas respostas podem romper a sincronização entre organismos de diferentes níveis tróficos. O resultado inclui menor persistência populacional e perda de funções ligadas à produção agrícola.
Os riscos atingem de forma direta o manejo de pragas. Predadores e parasitoides dependem da presença e do desenvolvimento de hospedeiros ou presas. Cada organismo apresenta uma faixa térmica própria. O aumento da temperatura pode alterar o ritmo de desenvolvimento desses grupos e criar desencontros temporais entre praga e inimigo natural.
O trabalho cita evidências de redução da eficiência de forrageamento em parasitoides pequenos, com menos de três milímetros, após exposição ao estresse térmico. Chuvas intensas também podem atrasar o desenvolvimento dos insetos ou removê-los das plantas. Temperaturas elevadas prejudicam desenvolvimento, reprodução e sobrevivência de inimigos naturais, efeitos que diminuem o potencial de controle biológico.
Um levantamento de longo prazo realizado no leste da Ásia registrou redução de 19,3% na abundância de inimigos naturais durante dezoito anos. O mesmo trabalho identificou perda de conectividade em redes alimentares formadas por 124 pares de interações tróficas. Outro estudo encontrou mudanças em parasitoides de ovos do gênero Trichogramma. Nove das doze espécies registradas desapareceram ao longo de trinta anos de monitoramento. Duas novas espécies apareceram no período.
A pressão das pragas amplia a importância desse processo para a segurança alimentar. Insetos-praga consomem entre 5% e 20% das principais culturas de grãos no mundo, segundo trabalhos reunidos pelos cientistas. As perdas provocadas por pragas podem crescer entre 10% e 25% para cada aumento de um grau Celsius na temperatura global. Insetos responsáveis pelo controle natural respondem por 33% das pragas controladas sem intervenção direta e fornecem um serviço avaliado em 4,5 bilhões de dólares por ano.
Para reduzir os impactos, os pesquisadores destacam restauração de hábitats, diversificação da paisagem agrícola e Manejo Integrado de Pragas. Consórcios de culturas e arranjos mais diversos criam microclimas com menor oscilação térmica e maior umidade, que favorecem a atividade de inimigos naturais. Além disso, faixas com plantas floríferas podem ampliar recursos para polinizadores e inimigos naturais. Sistemas silvipastoris também oferecem condições para conservar besouros coprófagos. A integração entre árvores, forrageiras e animais melhora a qualidade do solo, reduz erosão e pode elevar a remoção de esterco em comparação com sistemas pecuários intensivos.
Os cientistas também recomendam menor dependência de inseticidas de amplo espectro e maior uso de produtos seletivos. Programas baseados em nível de dano econômico reduziram em 44% o número de aplicações de inseticidas e em 40% os custos associados, sem perda de controle das pragas nem de produtividade nos estudos avaliados.
O estudo está disponível em https://www.schweizerbart.de/papers/entomologia/detail/prepub/109330/Climate_driven_disruption_of_multitrophic_interact?af=crossref.
Fonte: Revista Cultivar – Schubert Peter