Artigos: 2019


Força Tarefa de Herbicidas Hormonais

FORÇA TAREFA DE HERBICIDAS HORMONAIS
No artigo anterior “Deriva à Deriva” narramos sobre o efeito da deriva do 2,4-D e de outros herbicidas hormonais em culturas sensíveis no Rio Grande do Sul. Mas, ficou um suspense no ar. Afora as exigências estabelecidas por instruções normativas da Secretaria da Agricultura, a Promotoria Pública criou um fundo compensatório de R$ 6,5 milhões para que as empresas cadastrantes de 2,4-D no Estado custeassem a compra de equipamentos meteorológicos, análise de resíduos e a implantação de um sistema computacional de controle, para auxiliar FEPAM e SEAPDR a monitorarem a situação. Como as empresas reagiram?
A par da boa intenção da Promotoria, não nos parece legítimo o Ministério Público ter tomado esta atitude. O custeio destes equipamentos e serviços claramente é do Poder Executivo, com recursos de impostos, taxas e multas, que inclusive as empresas envolvidas neste caso já o fazem. Não somos especialistas nesta matéria, mas por simples bom senso, parece-nos mais razoável o MP fazer pressão sobre aqueles órgãos executivos para cumprirem suas obrigações.
Entretanto, prezados leitores, não houve insurgência por parte das empresas. Coube a cada empresa um montante proporcional às suas vendas no RS, de acordo com dados da Secretaria da Agricultura. Algumas negociaram trocar o numerário por outros serviços e outras simplesmente depositaram suas partes na conta indicada pela Promotoria.
Como assim, não há departamento jurídico nessas empresas? Sim, mas a pressão sobre os agrotóxicos tem sido tão intensa, quase terrorista, que elas recuaram. E mais, uma pressão comandada nacionalmente pelo próprio Ministério Público, órgão que deveria defender os negócios legalmente instituídos, pautados em leis, decretos e, neste caso, em uma infinidade de portarias, instruções normativas, resoluções, etc. Mas preferem ficar à margem da ciência e incentivar a beligerância contra os agrotóxicos.
Foi uma decisão estratégica das empresas ou ficaram com medo de retaliações? Não importa, o fato é que passaram ao largo dos seus direitos e atenderam resignadamente ao comando ditatorial daquela autoridade. Episódio triste, que fazemos questão de deixar esse registro.
A par disso, 23 empresas constituíram uma Força Tarefa para cumprimento das Instruções Normativas da Secretaria da Agricultura. As reuniões desta FT foram realizadas na AENDA e, ficou resolvido que esta última fosse contratada para realizar as tarefas administrativas, tais como elaboração de contrato e efetivação das decisões tomadas.
A FT decidiu criar um folheto técnico-educativo para ser anexado pelas empresas e seus distribuidores às Notas Fiscais das vendas aos produtores rurais. Este folheto resume instruções técnicas de aplicação, em especial voltadas para a mitigação de deriva dos produtos hormonais 2,4-D, Fluroxipir, Triclopir, Dicamba, MCPA e Picloram. Além disso, traz uma chamada aos agricultores para acesso a um vídeo instrutivo, no site www.aplicacacaosegura.agr.br.
O vídeo é um programa de educação e treinamento com orientações on line aos produtores, aplicadores e demais usuários sobre a correta e segura aplicação dos produtos hormonais no Rio Grande do Sul.
Explica que os herbicidas hormonais são aqueles que apresentam mecanismo de ação do grupo químico das auxinas sintéticas, as quais interferem no crescimento das plantas. Mostra, com figuração animada, as orientações técnicas em detalhes. Neste formato o entendimento é por demais facilitado. Chama a atenção para os cuidados relacionados à condição climática; transmite instruções relacionadas aos equipamentos de aplicação; insiste em outros detalhes para maior segurança na manipulação e aplicação dos produtos; e relembra a destinação correta das embalagens vazias.
Agora, o desafio da Força Tarefa é atender às exigências da Reavaliação do 2,4-D realizada pela ANVISA. A orientação é aqui é para focar o programa educacional nas regiões com maior problema de intoxicações.
Como nem todas as empresas estão nesta Força Tarefa, entendemos ser imperativo citar as participantes, até o momento:
Adama Alamos Albaugh Allier
Alta Ameribras Biorisk BRA
CAC CCAB CHD`S CropChem
Helm Ihara Nortox Nufarm
Ouro Fino Prentiss Rainbow Solus
STK-Stockton Tecnomyl UPL

Eng. Agr. Tulio Teixeira de Oliveira – Diretor Executivo da AENDA
www.aenda.org.br / aenda@aenda.org.br
novembro.2019

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Flora & Fauna

FLORA & FAUNA

1º Ato – FLORA
Temos repetido neste espaço a problemática das filas dos pedidos de registros de agrotóxicos. Os três órgãos reguladores exibem um número surpreendente de processos em espera que pode levar 7 a 8 anos. Para atualizar, veja o quadro das filas na ANVISA.
Tipos de Processos dez.2016 dez.2017 dez.2018 jun.2019
Fila de registro 2520 2408 2905 2814
Fila de pós-registros 205 Zero 310 415
Recursos 41 07 04 05
TOTAL 2766 2515 3219 3234
Quantidade de Registros concedidos 277 405 450 211

Ou seja, o último processo na fila será avaliado em 7 anos e meio.
Pois bem, assistimos em junho uma apresentação da Gerencia de Toxicologia da ANVISA sobre um plano para tornar mais ágil essa análise, ao menos para os produtos formulados. Em síntese, trata-se de cada proponente preencher cerca de 20 formulários com dados específicos contidos no dossiê do produto e apresentá-los à autoridade competente. De posse desses formulários, em formatação digital, o técnico avaliador alimenta um programa, que faz a leitura e, expeditamente, dá o resultado, aprovando com a Classe Toxicológica resultante ou informando os pontos não compatíveis ou reprovando como um produto não passível de registro. Não é para logo, pois testes preliminares estão sendo realizados para ajustes necessários. A expectativa é que entre em ação durante 2020.

O nome do programa é Ferramenta de Leitura Otimizada no Registro de Agrotóxicos – FLORA!

2º Ato – FAUNA
Enquanto o poder executivo tenta acertar o passo, a imprensa brasileira e mídias sociais teimam em atacar a imagem do nosso agronegócio (desmatamento da Amazônia, desertificação do Cerrado, alimentos com resíduos de agrotóxicos, etc.). São notícias construídas no exterior e repetidas aqui sem qualquer reflexão. Parece que não foi percebido que a disseminação deste tipo de notícia faz parte de uma guerra concorrencial. Diminuir a produção agropecuária brasileira significa mais espaço mercadológico para outros países também com perfil agroprodutor.

Um alvo bem comum desses ataques é mostrar o país como campeão dos agrotóxicos, venenos que chegam aos pratos dos consumidores. A ciência é deixada de lado e só o ranger raivoso da fauna enfurecida de ONGs é posto como argumentação.

O mais recente ataque diz respeitos aos registros concedidos. Como aprovar 211 registros de agrotóxicos só nos primeiros 6 meses de 2019? É um absurdo, vamos envenenar mais ainda os nossos campos!

Tem até petição na Câmara dos Deputados para suspender esses registros.

Bom, comparando com os números da fila de registros a reclamação parece piada, falta de inteligência ou má fé. Produto registrado não aumenta a quantidade usada, é apenas uma opção a mais dada ao agricultor, que pode trocar de marca de um produto genérico ou adquirir um produto com ativo novo para verificar seu desempenho no controle de uma praga. Mais marcas na praça podem trazer apenas o efeito de acirramento da concorrência e eventual queda de preço. O aumento da quantidade de uso só é possível com o aumento de área plantada, que não é o caso.

Aliás, a verdade sobre esse ranking é a seguinte. Segundo dados da FAO e Banco Mundial, em quilos por hectare cultivado:
Japão Holanda França Alemanha Brasil
11,75 4,59 2,40 1.90 1,16

Ou seja, conclui-se que a atitude fundamentalista de determinadas ONGs e dos inimigos fortuitos do agronegócio brasileiro piada não é…

Eng. Agr. Tulio Teixeira de Oliveira – Diretor Executivo da AENDA
www.aenda.org.br / aenda@aenda.org.br
julho.2019

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Deriva à Deriva

DERIVA À DERIVA
A mancha de névoa criada pelas pontas da barra pulverizadora pairava por um instante sobre o tapete de ervas daninhas antes do plantio da soja, quando uma brisa acima de 10 km/h bafejou de oeste para leste afastando gotículas do alvo e levando-as em parte a cair sobre uma vizinha plantação de uva. Em pouco tempo a folhagem das primeiras linhas das videiras ficou levemente encarquilhada e logo depois decaiu de tonalidade, do verde ao amarelo e um tanto ressequida.
Na safra 2018/2019 este cenário foi comum em 23 municípios do Rio Grande do Sul. A causa maior foi o aumento da área de soja e também dos parreirais, aproximando-as um pouco, além do consequente maior uso de produtos à base de 2,4-D para eliminar ervas já não controladas pelo Glifosato, como a coniza bonariensis, conhecida por buva.
As reclamações foram de tal monta que o assunto foi parar na Promotoria Pública, exigindo o banimento do produto, com relatos de prejuízos entre 30 a 60%.
O 2,4-D é uma auxina sintética de volatilidade alta, propriedade que facilita movimentação pelo vento e alcançando distâncias surpreendentes. Por isso é prudente usar em temperaturas inferiores a 30o C e umidade relativa do ar superior a 55%. Hoje existem aparelhos portáteis capazes de medir esses fatores climáticos.
O agricultor deve ainda utilizar equipamento que induza formação de gotas grossas, acima de 350 micras, em volume de calda de 100 a 200 litros por hectare. Neste particular, é preciso ter cuidado, pois o tamanho de gotas pode variar muito. Para ter uma visão mais técnica, veja o quadro abaixo da American Society of Agricultural and Biological Engineers – ASABE..
FAIXA DE TAMANHO (µm) CLASSIFICAÇÃO COR DE REFERÊNCIA
<60 Extremamente Fina (XF) Roxo 61-105 Muito Fina (VF) Vermelho 106-235 Fina (F) Laranja 236-340 Média (M) Amarelo 341-403 Grossa (G) Azul 404-502 Muito Grossa (MG) Verde 503-665 Extremamente Grossa (XC) Branco >665 Ultra Grossa (UC) Preto

Se disponível é recomendável adicionar adjuvantes com propriedades para reduzir a volatilidade e a evaporação.
Em verdade, o grupo químico das auxinas sintéticas, chamado de hormonal, conta com outros produtos representantes, tais como Fluroxipir, Triclopir, Dicamba, MCPA, Picloram, Aminopiralide, Clopiralida e Quincloraque. As culturas mais sensíveis e que apresentam nítida fitotoxicidade ao contato com estes hormonais são: videira, macieira, oliveira, nogueira-pecã, erva-mate, tomate e hortaliças diversas.
As auxinas agem promovendo a produção de etileno e ácido abscísico em quantidades acima do normal, resultando em diversas enzimas, que alongam as células ao invés de dividi-las. Como resultado, as folhas das videiras apresentam curvatura do dorso e amolecimento das pontas, a chamada pata-de-rã no linguajar popular. Em progressão surgem necroses e queda da folhagem. Ademais, é possível perceber ainda alongamento das gavinhas e deformação de ramos jovens, e aparecimento de raízes adventícias nos ramos verdes e mesmo nos lenhosos.
O viticultor mais experiente faz uma, duas e até três podas para que o ramo, uma livre do poder destrutivo da auxina, se recupere. Mas não é rápido, o processo leva de 12 a 18 meses.
Felizmente, os níveis de resíduos nas bagas não comprometem o consumo, ficam dentro dos limites toleráveis.
O promotor público, açodado pela ira dos agricultores prejudicados, reuniu as partes e ao final resolveu solicitar à Secretaria da Agricultura medidas de controle das operações de aplicação e exigir esforço educacional por parte das empresas vendedoras e também das empresas com cadastros desses produtos no Estado. De imediato, a Seapdr fez publicar Instruções Normativas para disciplinar esses controles. E, para acalmar os ânimos, o promotor propôs um fundo compensatório de R$ 6,5 milhões com custeio dessas empresas com cadastro de hormonais, para compra de equipamentos meteorológicos, análise de resíduos e a implantação de um sistema computacional, para auxiliar a Fepam e a Secretaria da Agricultura a monitorar a situação.
Essa última deriva, – o Executivo com receita advinda não de impostos, mas de uma espécie de chantagem social do Ministério Público, ainda não tinha desfecho ao término desta resenha com ares de aula.

Eng. Agr. Tulio Teixeira de Oliveira – Diretor Executivo da AENDA
www.aenda.org.br / aenda@aenda.org.br
setembro.2019

A foto que enfeita o artigo é da ADAPAR.

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