TÉCNICA E CONTROLE DAS MISTURAS

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Na perspectiva jurídica já está pacificado que o agricultor pode realizar a mistura no tanque do pulverizador, uma vez que a lei não impede essa prática. Já o profissional que prescrever a receita agronômica deve, por cautela, evitar fazer tal recomendação, posto que não consta das bulas dos produtos. E, a empresa registrante reluta em fazer o pleito de recomendação na bula por falta de uma normativa com os procedimentos para suportar o requerimento.

Recentemente, a EMBRAPA_Soja apresentou uma pesquisa prospectiva que sinaliza ser de 97% o índice do agricultores que realizam essa operação de misturar produtos. O percentual é alto em razão de necessidades fitossanitárias, como ervas diferentes brotando ao mesmo tempo, insetos coabitando com ácaros ou fungos, ataques simultâneos de pragas nas raízes e na ramagem, manejo da resistência, etc. E, fazer separadamente a aplicação de um e outro produto redundaria em maior gasto de combustível e água, maior tempo operacional, mais desgaste do maquinário, mais amassamento da lavoura e compactação do solo e, ainda, maior exposição do aplicador.

A pesquisa da EMBRAPA mostrou outros números esclarecedores e, digamos, inquietantes. Misturando 2 produtos em uma mesma operação estão 18% dos agricultores. Cerca de 40% associam 3 produtos, 26% mesclam 4 produtos, 12% juntam 5 produtos, e, 4% mais do que isso.

A inquietação advém de outro dado da pesquisa: 72% dos pesquisados declararam ter observado problemas. E mais, 65% disseram que as informações técnicas disponíveis não são suficientes para orientar a boa prática agronômica da mistura; e, 8% revelaram desconhecer essas orientações.

Os problemas mais freqüentes relatados foram: estratificação dos produtos na calda por densidade, formação de aglomerados e deposição no fundo do tanque, que podem levar
a entupimentos dos bicos ou pulverização não homogênea.

Ora, se esses problemas subtraem parte das vantagens da operação da mistura na calda do pulverizador, está configurado um cenário que aponta para a necessidade de oficializar normas mínimas de procedimentos relativos a aplicação de defensivos fitossanitários em mistura na calda de pulverização.

Os canais mais diretos de difusão de normas educativas como estas são as próprias bulas dos produtos e as receitas agronômicas. E, infelizmente, estão hoje impossibilitadas de cumprir esse papel no Brasil, no caso das misturas em tanque.

Um grupo de técnicos da EMBRAPA, ESALQ, SINDIVEG, ANDEF e AENDA construíram uma proposta de regulamentação e apresentaram ao Ministério da Agricultura, no mês passado.

Esse grupo levantou a regulamentação adotada em outros países sobre essa questão, e descobriu que existem regras estabelecidas na Inglaterra, no Canadá e na Austrália. Nos Estados Unidos e em muitos outros países, as regras mínimas de conduta são adotadas pelo consultor técnico da propriedade.

Torna-se inadiável um entendimento racional na esfera do governo federal liberando as bulas e as receitas agronômicas à incorporação de orientações básicas, mas imprescindíveis para uma boa prática no campo.

A mais importante regra é permitir a recomendação nas bulas da mistura de produtos, citando seus ingredientes ativos e descrever o procedimento conhecido internacionalmente por “Teste da Jarra”. O Teste da Jarra consiste em adicionar em um recipiente com água os produtos a serem pretensamente misturados, numa ordem de acordo com o tipo de formulação, e na mesma diluição de campo: primeiro–grânulos dispersiveis, pós-molháveis e suspensões concentrada; segundo – concentrados emulsionáveis e formulações oleosas; terceiro – produtos solúveis em água; quarto–
agentes molhantes; quinto – completar o volume de água.

Deixar em repouso por 2 horas e verificar, então, se há incompatibilidades físicas. A decantação de alguns produtos flutuantes ou em pó é normal; mas, caso exista dificuldade em “ressuspender” tais produtos, deve-se agitar a calda durante a aplicação.

Outra regra importante é a obrigatoriedade do uso de equipamentos de proteção individual que previna a exposição do trabalhador de todas as ameaças dos produtos a serem misturados. Da mesma forma, os cuidados com o meio ambiente devem atender as técnicas mais modernas, e que muitas vezes ainda não chegaram às bulas.

Com mais razão, para a Receita Agronômica a liberdade deve ser ainda maior, pois a operação se dará sob a expressa responsabilidade de um técnico especializado na matéria. Se o técnico entender que é viável a associação de 3 ou mais produtos, a ele deve ser permitido orientar seu consulente, mesmo que não esteja nas bulas dos produtos. Antes de tudo ele verifica se há produtos com incompatibilidades químicas, geralmente envolvendo alcalinidade ou acidez mais acentuada de algum produto; e, em seguida aplica o Teste da Jarra; e faz as considerações pertinentes ao meio ambiente e à segurança do trabalhador.

Deixar como está hoje não é uma atitude digna do conhecimento científico acumulado na Agronomia, na Toxicologia e na Ecotoxicologia.

Eng. Agr. Tulio Teixeira de Oliveira – Diretor Executivo da AENDA