Deriva a Deriva

A mancha de névoa criada pelas pontas da barra pulverizadora pairava por um instante sobre o tapete de ervas daninhas antes do plantio da soja, quando uma brisa acima de 10 km/h bafejou de oeste para leste afastando gotículas do alvo e levando-as em parte a cair sobre uma vizinha plantação de uva. Em pouco tempo a folhagem das primeiras linhas das videiras ficou levemente encarquilhada e logo depois decaiu de tonalidade, do verde ao amarelo e um tanto ressequida.
Na safra 2018/2019 este cenário foi comum em 23 municípios do Rio Grande do Sul. A causa maior foi o aumento da área de soja e também dos parreirais, aproximando-as um pouco, além do consequente maior uso de produtos à base de 2,4-D para eliminar ervas já não controladas pelo Glifosato, como a coniza bonariensis, conhecida por buva.
As reclamações foram de tal monta que o assunto foi parar na Promotoria Pública, exigindo o banimento do produto, com relatos de prejuízos entre 30 a 60%.
O 2,4-D é uma auxina sintética de volatilidade alta, propriedade que facilita movimentação pelo vento e alcançando distâncias surpreendentes. Por isso é prudente usar em temperaturas inferiores a 30o C e umidade relativa do ar superior a 55%. Hoje existem aparelhos portáteis capazes de medir esses fatores climáticos.
O agricultor deve ainda utilizar equipamento que induza formação de gotas grossas, acima de 350 micras, em volume de calda de 100 a 200 litros por hectare. Neste particular, é preciso ter cuidado, pois o tamanho de gotas pode variar muito. Para ter uma visão mais técnica, veja o quadro abaixo da American Society of Agricultural and Biological Engineers – ASABE.

FAIXA DE TAMANHO (µm)

CLASSIFICAÇÃO

COR DE REFERÊNCIA

<60

Extremamente Fina (XF)

Roxo

61-105

Muito Fina (VF)

Vermelho

106-235

Fina (F)

Laranja

236-340 Média (M) Amarelo

341-403

Grossa (G) Azul

404-502

Muito Grossa (MG) Verde
503-665 Extremamente Grossa (XC) Branco
>665 Ultra Grossa (UC) Preto

Se disponível é recomendável adicionar adjuvantes com propriedades para reduzir a volatilidade e a evaporação.
Em verdade, o grupo químico das auxinas sintéticas, chamado de hormonal, conta com outros produtos representantes, tais como Fluroxipir, Triclopir, Dicamba, MCPA, Picloram, Aminopiralide, Clopiralida e Quincloraque. As culturas mais sensíveis e que apresentam nítida fitotoxicidade ao contato com estes hormonais são: videira, macieira, oliveira, nogueira-pecã, erva-mate, tomate e hortaliças diversas.
As auxinas agem promovendo a produção de etileno e ácido abscísico em quantidades acima do normal, resultando em diversas enzimas, que alongam as células ao invés de dividi-las. Como resultado, as folhas das videiras apresentam curvatura do dorso e amolecimento das pontas, a chamada pata-de-rã no linguajar popular. Em progressão surgem necroses e queda da folhagem. Ademais, é possível perceber ainda alongamento das gavinhas e deformação de ramos jovens, e aparecimento de raízes adventícias nos ramos verdes e mesmo nos lenhosos.
O viticultor mais experiente faz uma, duas e até três podas para que o ramo, uma livre do poder destrutivo da auxina, se recupere. Mas não é rápido, o processo leva de 12 a 18 meses.
Felizmente, os níveis de resíduos nas bagas não comprometem o consumo, ficam dentro dos limites toleráveis.
O promotor público, açodado pela ira dos agricultores prejudicados, reuniu as partes e ao final resolveu solicitar à Secretaria da Agricultura medidas de controle das operações de aplicação e exigir esforço educacional por parte das empresas vendedoras e também das empresas com cadastros desses produtos no Estado. De imediato, a Seapdr fez publicar Instruções Normativas para disciplinar esses controles. E, para acalmar os ânimos, o promotor propôs um fundo compensatório de R$ 6,5 milhões com custeio dessas empresas com cadastro de hormonais, para compra de equipamentos meteorológicos, análise de resíduos e a implantação de um sistema computacional, para auxiliar a Fepam e a Secretaria da Agricultura a monitorar a situação.
Essa última deriva, – o Executivo com receita advinda não de impostos, mas de uma espécie de chantagem social do Ministério Público, ainda não tinha desfecho ao término desta resenha com ares de aula.

Por Tulio Teixeira de Oliveira, engenheiro agrônomo e diretor executivo da AENDA