Genéricos são 70% do mercado de agroquímicos

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O engenheiro agrônomo Túlio Teixeira de Oliveira, 70 anos, diretor-executivo da Aenda – Associação Brasileira de Defensivos Genéricos é também engenheiro de segurança em unidades fabris, especialmente de empresas de defensivos e fertilizantes, e concedeu entrevista para a revista Agro DBO, conduzida pelo editor-executivo Richard Jakubaszko, a quem revelou números e aspectos interessantes sobre o mercado de agroquímicos no Brasil, com destaque para a importância dos agroquímicos genéricos produzidos pela entidade que dirige há 22 anos.
Túlio nasceu em uma cidade que não existe mais, chamada de Cangati (CE), que em linguagem indígena significa “peixe da boca torta”, formou-se na Escola de Agronomia do Ceará, e migrou para São Paulo no início dos anos 1970, onde se tornou corintiano. Inicialmente fez estágio no Instituto Biológico, e depois trabalhou em diversas empresas, como Ciba Geigy (hoje Syngenta) depois na Abbott, onde participou da equipe que lançou Dipel, o primeiro inseticida biológico no Brasil, à base de Bacillus Thuringiensis, ainda hoje muito utilizado, e do qual revela ter orgulho desse feito. Trabalhou na Benzenex e Agroceres, antes de ingressar na Aenda, em 1996, que inicialmente tinha a denominação de Associação das Empresas Nacionais de Defensivos Agrícolas, nome depois alterado para a denominação atual, de “defensivos genéricos”, sem alterar a sigla original.
Desse tempo de mais de 22 anos na Aenda resulta o segundo orgulho de Túlio, que foi implantar o regime do registro de defensivos por equivalência no Brasil, a partir de 2002.

Agro DBO – Como surgiu a Aenda, qual foi o propósito?
Túlio Oliveira – Tudo começou na Andef, a Associação Nacional de Defensivos Vegetais, mas a partir de 1989 houve distensões entre empresas associadas, agravadas pela nova legislação, a chamada Lei dos Agrotóxicos, que faz parte da Constituição de 1988. As empresas nacionais de defensivos, preocupadas com as ações de ONGs, que exigiam uma regulamentação muito rígida para as empresas multinacionais, essas nacionais usaram da estratégia de ter uma entidade para sua representação institucional. Começamos com 12 empresas associadas, depois, os objetivos iniciais da Aenda convergiram para os defensivos genéricos, quando mudamos a razão social, e ela adaptou-se aos novos tempos. Hoje temos 49 empresas associadas, a maioria de empresas de pequeno porte.

Agro DBO – Quanto representam as associadas da Aenda em termos de vendas de agroquímicos no Brasil?
Túlio Oliveira – Muito pouco, algo como 2% do total das vendas do mercado total. A explicação para isso é que a maioria dos genéricos está nas mãos das multinacionais. Esses genéricos significam 70% do total das vendas do setor. E olha que estou me referindo a um mercado total que significou US$ 9,5 bilhões em 2016. Em 2017 deve cair um pouco, mas ainda será muito grande, em torno de US$ 9 bilhões. De outro lado, oficialmente, a Aenda é a representante dos genéricos, mas para as multinacionais os genéricos são algo ruim, porque baixam as médias de faturamento e de lucratividade. A Syngenta, por exemplo, tem um faturamento maior com genéricos do que com os produtos de marca e exclusivos, aqueles que têm patentes ainda com validade. E essas multinacionais não são nossas associadas. Nossas associadas, fundamentalmente, operam apenas com genéricos, e nesse campo há concorrência, aspecto que beneficia os produtores em todos os sentidos.

Agro DBO – Qual é hoje o maior gargalo do setor que a Aenda representa?
Túlio Oliveira – A fila de registro de produtos, que é muito grande, tem uma demora enorme, e faz mais de 10 anos que batalhamos com isso. Nestes dois últimos anos há mais desalento ainda, porque o governo federal não tem verba para contratar gente, então, seja no Mapa, ou na Anvisa, há carência de gente para tratar do assunto. O Ibama ainda tem certa agilidade, mas nos outros dois órgãos que regulam o setor há uma burocracia e uma regulamentação exagerada, que exigiria mais gente para agilizar, e isso hoje é impossível.

Agro DBO – Como a Aenda avalia a questão da ferrugem da soja resistente aos fungicidas?
Túlio Oliveira – O Brasil já tem históricos de resistências, não dá para dizer que desconhecemos, em menor escala, é claro, como o caso da batata, cacau, onde há fungos com essa multiplicidade rápida de mutação. A soja, sendo a maior cultura brasileira, no caso é mais significativo, tanto em termos econômicos como agronômicos. Acho que o governo, os órgãos de pesquisa e a academia têm feito um bom trabalho. O vazio sanitário é um bom exemplo de proposta para minimizar o problema. Mais recentemente, batalhamos no manejo, com a sugestão de alternar as aplicações de fungicidas com modos de ação diferentes. O produtor, de outro lado, não é bobo, e essa história de colocar em destaque nos rótulos dos produtos qual é o modo de ação dos fungicidas, esse ensinamento vai promover mais a busca por uma rotação de produtos mais séria e eficiente. A rotação quem faz é o produtor, isso não depende dos ventos ou da temperatura. Se isso for feito adequadamente vai ajudar bastante a minimizar o problema. A outra coisa é o imponderável. É que cada vez temos menos novas moléculas no mercado, antes a velocidade de lançamentos era maior.

Agro DBO – Por que ocorre essa demora atualmente?
Túlio Oliveira – Os filtros regulatórios, nacionais e internacionais, cresceram muito, e isso tem dificultado sobremaneira não apenas a pesquisa em si, mas o registro dos novos produtos. No caso da ferrugem não tivemos novas moléculas, mas a observação empírica de que os fungicidas multissítios ajudam a controlar a doença se utilizados em rotação com os fungicidas específicos, e que servem muito bem para o propósito de suprimir a primeira esporulação do fungo. E agora esses fungicidas, como o mancozeb, fazem parte do pacote recomendado de manejo.

Agro DBO – Em decorrência disso os preços desses genéricos quase triplicou!
Túlio Oliveira – O mercado é assim, regulado pela oferta e procura.

“A China entrou de forma avassaladora no Brasil com registros de genéricos, e isso balançou, sacudiu o mercado de forma vigorosa”.

Agro DBO – E os biológicos, qual é o futuro, na visão da Aenda? Haverá novidades para controle de doenças ou de ervas daninhas?
Túlio Oliveira – Eles estão chegando, vão ser muito importantes. Na verdade, o biológico é só uma forma de ação diferenciada. Acho que é só uma questão de tempo. As empresas vão começar a usar os biológicos modificados no seu DNA. E isso vai ser uma outra revolução. Os inseticidas biológicos estão à frente, mas o desenvolvimento de fungicidas biológicos é hoje uma corrente mundial, tem muita gente pesquisando isso, bem como as grandes multinacionais do setor. Herbicidas ainda devem demorar mais, não há nada sobre o assunto.

Agro DBO – Você acha que o agricultor está bem informado sobre as alternativas de uso entre genéricos e produtos de marca exclusivos?
Túlio Oliveira – A maioria absoluta dos nossos produtores é de pequeno porte, a chamada agricultura familiar. E esses ainda se atrapalham entre definições de uso e de funções entre fertilizantes e agroquímicos. Ainda estamos saindo do terceiro mundo, a falta de assistência técnica prejudica esse processo de evolução. Entre os médios e grandes produtores há uma consciência muito maior, evidentemente, hoje são profissionalizados. Tenho visto, entre os pequenos, na chamada agricultura familiar, uma reversão, o analfabetismo continua a aumentar, porque com as sucessivas crises o jovem não vai mais para a escola e acaba ficando na propriedade para ajudar no trabalho.

Agro DBO – Em compensação, a crise devolveu ao campo os jovens altamente tecnificados, que perderam emprego na cidade, e hoje ajudam os pais introduzindo nas lavouras tecnologias digitais, a agricultura de precisão, isso não é evolução?
Túlio Oliveira
– Claro, mas é uma minoria ainda, isso ocorre nas famílias de renda média. Os grandes e os médios profissionalizados não têm esse tipo de problema.

Agro DBO – Como a Aenda avalia as fusões e incorporações mais recentes, como os casos de Dow e Du Pont, Syngenta e Chem China, Bayer e Monsanto?
Túlio Oliveira
– Há uma concentração muito grande, um poder de fogo enorme nas mãos dessas empresas. É claro que o produtor perde poder de fogo como comprador, porque essas corporações impõem suas próprias regras comerciais. Mas o mercado internacional é muito competitivo, como a gente sabe, e isso atinge a todos. Na questão da demora de registros pelos órgãos reguladores, os genéricos possuem uma certa agilidade, os registros saem mais rápido um pouco se comparados a moléculas novas, por causa da equivalência. A China se aproveitou disso muito bem e pegou a todos desprevenidos, a nós e ao governo, pois entrou de forma avassaladora no Brasil com registros de genéricos, e isso balança, ou melhor, sacode o mercado de forma vigorosa. Por isso, a concentração das empresas é perversa, a concorrência diminui, isso vira um gigantesco rolo compressor, e apenas alguns grandes produtores rurais conseguem se proteger, enquanto o pequeno se perde na poeira.

Agro DBO – Os custos de produção, nesta safra de verão, voltaram a subir, há uma nítida tendência de recuperação de lucratividade por parte de todos os fornecedores de insumos. Tem espaço para isso? O produtor aguenta assumir essa queda na rentabilidade? (ler Ponto de Vista, pgs 6 e 7, nesta edição)
Túlio Oliveira
– Isso é cíclico, repete-se a cada grupo de safras. O que temos, a segurança que existe para a atividade do produtor rural, é que o mundo ainda é comprador de alimentos. Os estoques de passagem estão no limite, muito menores do que eram durante o pós-guerra, o que faz com que os preços das commodities oscilem sempre, mas na maioria dos casos de forma positiva. Ainda não chegamos em um nível bastante seguro de estabilidade na produção de alimentos. Disso decorre que os ciclos de crise da atividade do produtor rural, inclusive os de bonança, sejam picos menores dentro desse processo.

Por Richard Jakubaszko
Fonte: Revista DBO, março de 2018

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